IWELTMAN MENDES… a cada ano

FREDERICO Osanan
Há pouco mais de dois anos me despedi de Iweltman Mendes.
Sobre uma cama de hospital, um corpo pálido, magro e frio, orquestrava a
sinfonia da morte e ensaiava sua saída triunfal da vida para entrar na
história. Não havia cor nem cheiro em sua cama. Um fino lençol branco, um soro
gotejando paciência em sua veia e um ruído assombroso partindo do seu peito…
Nunca tinha visto alguém daquele jeito. Por isso mesmo sua morte me ensinou
muita coisa.
Entre as muitas lições que a morte de Iweltman me deu,
lembro de uma com bastante frequência: um corpo calado em terra alheia só tem
valor politico até ser enterrado e, no máximo, serve de palanque até a missa de
sétimo dia. Digo isso porque depois do seu enterro e luto, nunca ouvi ou vi
algum politico local lembraf-se de homenageá-lo ou discursar em seu favor. Alguns,
poucos, sem sucesso, sugeriram um titulo póstumo de cidadão parnaibano ou o
nome de um colégio como forma de agracia-lo. Em vão…
Hoje, mais do que quando morreu, reconheço as marcas de sua
vida atravessando a minha e a de muitos colegas. Como professor, amigo, pai,
esposo e historiador…. Em todas essas categorias, algum sinal dele se faz
presente em mim. De todas, a simplicidade intelectual que transformava em
fáceis coisas difíceis é, possivelmente, a qualidade mais ressaltada entre os
amigos.
Em História, aprendi desde cedo que a nossa produção
narrativa funciona como uma contra-memória. Ao narrar, o historiador contraria
a lembrança, a reminiscência, a recordação. Por isso, talvez, eu já tenha
declinado outras vezes em escrever algo sobre Iweltman. Meu medo de que a
lembrança que tenho dele fosse corrompida pelas palavras de uma narrativa
pseudocoesa acabou, durante algum tempo, funcionando como uma barreira
subjetiva e afetiva. No fundo, tinha receio de não conseguir.
Hoje, dois anos depois de me despedir de Iweltman, as senhas
inebriantes de sua morte reverberam em mim mais fortes do que antes. Continuo
sem entender o choro de alguns e a bajulação de outros. No entanto, sua
ausência funciona em mim, agora, como uma lembrança de que escolher a morte não
é uma saída. A morte não como um dado fisiológico, mas a morte em vida; a
morte como um a-sujeitamento em vida; a morte como negação da vida. Alguns
vivem quando morrem; alguns morrem sem nunca ter vivido; outros vivem em vida e
, mortos, embalam a vida e o coração de muita gente. Iweltman é, em minha
opinião, este ultimo. Poucos são assim…
Porque evidenciar essa contradição? Pra lembrar, antes de
tudo, que a morte não tem um sentido único e universal. Que é possível dizer e
pensar sobre ela várias coisas. Mas, também, pra dizer que aprendi com Iweltman
algumas lições de história que servem para entender o significado de sua
ausência.
– Com ele aprendi que toda história é promiscua, infiel, que
não respeita a logica das coisas, que extrapola a dimensão objetiva dos fatos:
– Aprendi a reconhecer que o lugar de construção do sentido
do passado se dá na nossa investida diária sobre os documentos, sobre as falas,
sobre um corpo. De que não há nada “em si”, ou naturalmente bom ou ruim.
– Que um historiador e uma boa história se fazem com
palavras, leituras e imaginação. E, também, com uma pitada da (in)
sensibilidade de uma prostituta: o passado não pertence a ninguém, não cobra
ciúme de quem o usa, nem pode ser controlado.
Com Iweltman aprendi, ainda, que não há “tempo ruim”; que a
leveza da vida está na forma como projetamos mentalmente a nossa existência.
Isso, de fato, não aprendi com sua morte. Aprendi em longas conversas e em
contatos fortuitos.

Por fim, por que lembrar a morte de Iweltman dois anos depois?
Talvez pra reavivar a sua permanência entre nós. Talvez pra dizer que ele está
vivo em nós. Quem sabe pra dizer que ele não está mais entre nós. Ou, algo que
eu acredito mais, porque precisamos lembrar que nos esquecemos dele a cada ano.
(Extraído do Jornal “O Bembém”)
Edição:Bernardo Silva

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