O sensacional desabafo de Zeca Camargo

Por:Marcelo Rubens Paiva

Zeca Camargo é um jornalista cultural de primeira linha.
Passou por grandes órgãos, foi
editor da Capricho, Ilustrada, passou pela TV Cultura, esteve no começo da MTV
e foi para a Rede Globo.
Entende de músicas como
poucos. Seu blog no G1 é referência, denso, robusto e preciso.
Sua presença no Fantástico,
como no quadro Medida Certa, era um desperdício. Merecia mais.
Não emplacou como apresentador
do Vídeo Show.
Mas emplacou uma “coluna”
sensacional no JORNAL DAS DEZ, da Globo News, que deu no que falar e foi
insanamente atacada dentro e fora da emissora.
O lide era a morte do cantor
sertanejo Cristiano “Ronaldo” Araújo e sua espantosa repercussão, cantor
conhecido pelo “grande público” e desconhecido pela “elite cultural”.
Na sua vídeo-crônica, Zeca não
desqualificou o cantor ou seu público, muito menos desdenhou a tragédia. Mas
virou o vilão da semana, num debate regido pela emoção, intolerância,
preconceito e leitura torta.
E teve que vir a público se
desculpar na emissora, retratação em que cometeu deslizes, gaguejou e “talvez”
se explicou que “talvez” tenha sido mal-entendido.
Foi nada. O que ele disse na
crônica faz todo o sentido.
Falou da surpresa da comoção
nacional, do “evento triste”, e citou a enormidade do País, a diversidade
cultural e o “talento” natural para a música.
O “abraço coletivo” em torno
da dor simbolizaria uma catarse coletiva, como se todos nós estivéssemos atrás
de uma união pela emoção, para expurgar nossas dores.
Como se o choro tivesse uma
capacidade purificadora.
Então veio o que incomodou
fãs, mercado, a TV aberta, a indústria e seu empregador.
Como nos deixamos seduzir pela
morte de um artista relativamente desconhecido?
“A resposta está nos livros de
colorir”, atestou Zeca.
Segundo ele, a nova moda
“literária”, acusada de representar a pobreza da atual alma brasileira, é a
vilã do cenário pop e mostra um vazio cultural no país de Machado, Lima
Barreto, Modernistas, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues e Noel
Rosa, Tom Jobim, Tropicália, Jovem Guarda, Clube da Esquina, Renato Russo,
Cazuza, Mangue Beat e Chico Sciense.
A comoção pela morte do cantor
estaria ligada à ausência de “fortes referências culturais que experimentamos”.
A “INSANA” cobertura de sua
despedida vestiu a carapuça do vazio de figuras esperando a tinta e
significado, “só esperando a tinta da emoção”.
Como “robôs coloristas”,
preenchemos desenhos na ilusão de estarmos criando alguma coisa, afirmou.
Para quem começou a trabalhar
quando Legião Urbana, Titãs, Cazuza e Plebe Rude dividiam o palco de programas
de auditório da TV aberta com Raul Seixas, Gil e Caetano, Mutantes, Milton
Nascimento e Elis Regina, a monotonia da nossa música, que já dura algumas
décadas, esvazia o mercado, dá poucas oportunidades a outros estilos e à
renovação.
Zeca disse o que está entalado
na garganta dos fãs da boa música:
“Nossa canção popular é
dominada por uma música só. O nosso pop não precisa ser assim… Não precisa ser
assim, precisamos de novos heróis, mas está todo mundo ocupado pintando Jardins Secretos [obra
que começou a onda de livros para colorir]”.
Alguém discorda?
Não sei se Zeca será retaliado
ou irá para a geladeira. Seria uma burrice da emissora encostá-lo, não
apoiá-lo. Deveria sim ter mais colunas na Globo News.
Afinal, o vazio não está só na
música.

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