A BELA DA TARDE (La Belle D’jour)

Antonio
Gallas
Toda tarde, ao final do dia, Luzia ia tomar seu
banho ao ar livre, à beira de um tanque que havia no quintal de sua casa. Nessa
época, em Tutóia, no Maranhão, não existia água encanada, nem tratada. Até hoje
ainda não existe. Infelizmente! A água utilizada na cidade, para beber e para
os afazeres domésticos, era retirada dos poços que as pessoas mandavam
construir nos quintais das suas casas. 
Para fazer esse serviço utilizavam-se baldes ou uma bomba de sucção
manuseada pelos braços humanos. Essa água era armazenada em tanques feitos de
tijolos com revestimento de cimento. Não existiam cisternas. As pessoas mais
abastadas possuíam caixas d’água, feitas também de tijolo e cimento, e
encanação para levar a água às diversas partes da casa como banheiros, pias e lavatórios.
Os canos eram de ferro galvanizado, de meia ou de uma polegada, não lembro bem.
As demais pessoas, para levar água ao banheiro, pias, aparelhos sanitários etc…,
utilizavam latas de flandres, geralmente compradas no comércio, pois vinham com
querosene que era vendida em retalhos, nas quitandas. O querosene servia para abastecer
lamparinas, candeeiros, petromax ou lampiões, tendo em vista que, a energia
elétrica da cidade só ficava ligada até às 10 da noite, ou seja, até às 22
horas. Também eram utilizados baldes de alumínio, plástico ou de zinco para
esses afazeres domésticos.
Mas Luzia não queria se dar ao trabalho de encher uma
vasilha com água e levar até o banheiro. 
Preferia tomar seu banho ali mesmo, ao ar livre, no quintal da sua casa,
bem à vontade, do mesmo jeitinho de como nascera, ou seja, nuazinha da silva. A
água do tanque ao final do dia estava friínha,
quase gelada, e quando deslizava pelo seu belo corpo fazia com que Luzia
ficasse toda eriçada, principalmente o seu belo par de seios que, com o frescor
da água e a suave brisa do fim de tarde, tornavam-se mais belos, sobretudo
quando os mamilos ficavam enrijecidos.
A água deslizando suavemente pelo corpo desnudo de Luzia
formava um esplendoroso quadro, digno de ser retratado por um Da Vinci, Van
Gogh ou mesmo por Tarsila do Amaral que no seu surrealismo tão bem expressou o
nu humano.
Luzia massageava seu belo corpo na medida em que se
passava o sabonete. Com as duas mãos apalpava os seios e com as pontas dos
dedos indicador e polegar acariciava os mamilos tornando-os bastante rijos.
Luzia estremecia como se estivesse em transe ou num frenesi sexual.
Absorto a esse magnífico espetáculo, escondido e protegido
pelos galhos de uma frondosa mangueira que existia no quintal vizinho, estava o
meu sobrinho Prodamor, menino bastante conhecido de todos por suas travessuras
e traquinagens.  Nessa hora só Deus sabe
o que passava pela cabeça de Prodamor ao presenciar todas as tardes um espetáculo
de raríssima beleza.
A noite tem seus encantos, seus mistérios e também seus
segredos. No decorrer de uma noite muita coisa pode acontecer, tanto numa
metrópole que nunca dorme, como numa cidade interiorana onde a energia elétrica
era desligada às das 22 horas.
Na quietude da noite Prodomor relembrava o delicioso
espetáculo que presenciava todos os dias no final da tarde. Fantasias eróticas
lhe vinham à mente. Sonhos e mais sonhos aumentavam cada vez mais aquele desejo
que ele talvez jamais conseguisse realizar: o de um dia ter Luzia em seus
braços, possuí-la, fazer amor com ela, cansá-la num prazeroso ato sexual, até
caírem juntos, adormecerem e acordarem no mesmo leito.  Nessa hora, meu sobrinho Prodomor
utilizava-se dos recursos do seu próprio corpo, ou seja, das próprias mãos
para, mesmo em pensamento, realizar esse seu desejo frenético de fazer amor com
Luzia, a bela de todas as tardes.
Mas, como diz o ditado, um dia é da caça outro do caçador, sabe-se lá por quantos diabos ou
que diabo de estripulia estava meu sobrinho Prodomor a fazer que, em determinado
momento, numa dessas tardes em que ele espiava a moça no seu banho, o galho da
mangueira quebrou-se e meu sobrinho Prodomor foi jogado ao solo, dentro do
quintal da casa de Luzia, pois a mangueira ficava na divisa da cerca que separava
os dois quintais. Prodomor foi flagrado com as calças abaixadas até a altura
dos joelhos e com a mão na massa, ou melhor, com a mão no p…
Além dos arranhões e machucões produzidos pela queda,
Prodamor teve também que se explicar para os pais da moça, sem contar a grandiosa
surra que levou do seu próprio pai.
Daí em diante, nunca mais meu sobrinho Prodomor aventurou-se
a apreciar o magnífico espetáculo da bela da tarde no seu banho ao ar
livre.  E hoje, quando ouve a música de
Alceu Valença, “La Belle D’jour” lembra aquela que um dia o fez levar uma boa
surra, mas que lhe proporcionou muitos sonhos bons nas noites calmas e silenciosas
de Tutóia décadas atrás.  (Do livro “Meu Sobrinho Prodamor e outros
Causos”)

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