A morte do Judas e a morte do pato

Por: Pádua Marques (*)
Toda essa situação, toda essa presepada em que está metido o governo da presidente Dilma, me faz lembrar de uma parte de minha infância. Parte em que eu já estava engrossando a voz e o talo da pinta, mas ainda muito rica em acontecimentos pra minha futura formação. Lembro e falo da malhação de Judas e da morte do pato lá pras bandas do Morro do Tiro, onde hoje está instalada a unidade representativa do Exército Brasileiro, o Tiro de Guerra de Parnaíba, na avenida São Sebastião.
Os meninos de hoje, esses que passam a vida inteira com a cara enfiada no celular, nos jogos eletrônicos e na frente da televisão, nunca vão ter momento mais alegre e cheio de suspense e coragem do que os meninos de meu tempo, naquele indescritível Sábado de Aleluia, quando se queimava o Judas e ocorria a morte do pato. Naquele tempo não se malhava o boneco, feito em dias próximos da Sexta-feira da Paixão e guardado com muito cuidado pelos donos pra ser queimado no finalzinho da tarde.
No hoje bairro São Benedito, que um dia pertenceu ao bairro de Fátima, havia vários botadores de Judas. Dos que eu conheci havia o Caxico, na Marechal Pires Ferreira, o Carneiro, na Sebastião Basto e mais lá em cima, o Luizinho, na Madeira Brandão. Eram botadores afamados e aguardados de ano pra ano. Geralmente esses botadores de Judas eram donos de quitandas, onde se vendia o querosene pra lamparina, a maisena pro mingau do menino e a cachaça pra goela de quem ia fazer as compras. Essa estratégia de marketing atraia a freguesia pro estabelecimento.
O nome do Judas era de acordo com a importância de uma pessoa. Podia ser tanto um político assim como um prefeito ou um artista, alguém que por este ou aquele motivo chamasse a atenção no momento. E no final da tarde daquele sábado de Aleluia lá ia a multidão pros pontos onde havia Judas. E ele lá, trepado, seguro por um carretel no alto de um mastro. A cara mais infame do mundo, nomeado e vestido com terno e gravata de alguém já morto, esperando a hora de ser queimado naquela algazarra toda provocando risos e admiração.
Mas antes da morte do Judas havia uma atração curiosa e que sempre atraía os meninos, principalmente os ditos mais corajosos: a morte do pato. Talvez a atração mais aguardada desse evento e inquietante e que exigia coragem, astúcia e sensibilidade do menino que estava competindo. Dentro de um cercado o pato era enterrado até o pescoço num buraco. O menino, armado com um cacete, era vendado e levava umas rodadas até ficar tonto perdendo a noção de onde estava. Aí era levado pelos gritos da multidão até onde estava o pato tentando acertar o bicho.
À medida que o menino avançava na direção do pato os gritos iam aumentando e com esta ajuda da torcida ele, o menino, tinha noção da proximidade com sua presa. Quando finalmente estava em frente ao pato, o cacete comia solto. Com aquela gritaria toda e agora tendo certeza de ter acertado o bicho, o menino tirava o pano da cara e arrancava o pato do buraco metendo o pé na carreira na direção de casa ou ganhando alguma rua até não mais ser alcançado. Dos meninos de meu tempo tidos e havidos como fortes matadores de patos em Sábado de Aleluia estavam, os filhos do Adonias, da Sebastião Basto: Pedro, Nonato, Joãozinho. E o Paulo Careca, da 16 de Novembro. Tinha gente que apostava neles até dez cruzeiros.
Pois este momento da presidente Dilma Rousseff está muito, mas muito parecido com aquele costume antigo do tempo de minha infância no bairro de Fátima. Dilma está como aquele Judas pendurado pela cabeça naquele mastro e às vésperas de ser tocado fogo, feito uma Joana Darc. Ou como aquele pato amedrontado dentro do buraco. Os gritos daquela gente aumentando por fora do cercado vão levar o menino armado com o cacete pra acertar a sua cabeça. E morto daquela forma cruel, ser arrancado daquele buraco até terminar numa panela de água quente pra virar o almoço de Domingo de Páscoa.
(*) Pádua Marques é jornalista e escritor

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