O cacique Juruna estava com a razão

Por: Pádua Marques(*)
Nestes dias em que o Palácio do Planalto está mais parecendo a Central de Flagrantes da Parnaíba com toda hora chegando um camburão cheio de bandidos pegos com a boca na botija, eu fico aqui comigo pensando a que ponto chegou o Brasil. É tanta a pouca vergonha, falta de ordem e de autoridade correndo solta que é até difícil de acreditar quem esteja falando a verdade.
O cenário realmente é de porta de delegacia. Logo ali na frente está se dando no meio da rua uma briga, um bate-boca entre uns delinquentes por causa de pagamento de propinas. Outros estão aguardando audiência com o delegado por causa de uns papelotes de maconha e pedrinhas de crack. E mais adiante vem chegando um grupo de insatisfeitos com o governo interino de Michel Temer vindo registrar boletim de ocorrência. Tudo junto e misturado. Todo mundo falando alto e ao mesmo tempo. Uns entregando os outros.
Michel Temer dentro de mais alguns dias deve ser chamado de Noca, aquela dona de casa aonde todo mundo chega e faz o que quer na cozinha. Todos os seus filhos têm defeitos e a cada hora é descoberto um podre, cada um pior que o outro. E tanta é a falta de autoridade e tanta corrupção correndo por baixo que me vem à lembrança um sujeito baixo e atarracado que criou muito alvoroço em Brasília nos anos em que estava sentado na cadeira de delegado o general João Batista Figueiredo.
Mario Juruna, cacique da tribo xavante namurunjá, reserva de São Marcos, no Barra do Garças, Mato Grosso, foi o primeiro de sua nação a alcançar uma cadeira de deputado federal pelo PDT de Leonel Brizola. Viveu em sua aldeia até os dezessete anos sem ver a cara suja dos brancos. Ficou famoso por encher a paciência de gente do governo, de deputados e senadores cobrando atitude deles pra seu povo, principalmente no que se referia à demarcação de terras. E sempre carregava a tiracolo o diabo de um gravador.
Esse equipamento, dizia o cacique, era pra registrar tintim por tintim aquilo que o homem branco dizia e pra depois poder ele, Juruna, cobrar uma em cima da outra. O gravador na frente dos equipamentos eletroeletrônicos de hoje, principalmente telefones celulares, era uma aberração, dado o tamanho de uma caixa dessas de bombom Garoto. Mas por isso mesmo acabava metendo medo.
Havia gente que se pelava de medo só de imaginar ele com aquele trem ligado. Juruna de tanto causar desconforto pelos gabinetes acabou por insistência do Brizola e do Darcy Ribeiro, que adorava índios, se candidatando a deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro. Era só o que faltava. Um índio deputado federal. A eleição de Juruna foi durante muito tempo assunto de roda de conversa em tudo quanto era canto, dentro e fora do Brasil. Foi o responsável pela criação da Comissão Permanente do Índio, no Congresso Nacional.
Dois anos depois de ter sido eleito denunciou o empresário libanês Calim Eid, por estar tentando lhe corromper pra que votasse em Paulo Maluf, então candidato à Presidência da República. Deu uma confusão dos diabos. Tentou uma reeleição em 1990 e 1994, mas não foi bem sucedido. Morreu pobre e esquecido no Guará, cidade-satélite de Brasília, em 2002. Havia sido abandonado tanto pelos de sua tribo, quanto pelos homens brancos que se meteram a serem amigos dele.
Morreu doente e na miséria aos 58 anos de idade e deixando uma família numerosa de 11 filhos. Perto do terror causado que fazem hoje os políticos chantageando uns aos outros, Juruna foi um menino. Se vivo fosse e tivesse continuado na política com sucessivas reeleições, o velho cacique da tribo xavante, filho de Apoenã, certamente estaria decepcionado e alarmado. Perto do que anda acontecendo na Central de Flagrantes da praça dos Três Poderes atualmente, Juruna não fez foi coisa nenhuma.
(*)Pádua Marques é jornalista e escritor

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