PENALIDADE MÁXIMA

Por:Pádua Santos(*)
O saudoso desportista Gilberto Escórcio, a despeito de sua naturalidade em Buriti
dos Lopes, considerava-se verdadeiro parnaibano, não somente por ter chegado a
Parnaíba na década de trinta, com menos de vinte anos, e não mais regressado;
mas também porque já quase havia esquecido seu torrão natal. E agora, ao seguir
à eternidade, depois de longa existência profícua, justifica-se sua devoção:
“Eu não podia continuar morando, gostando e sempre lembrando uma cidade que não
tivesse um bom time de futebol para torcer”. – Foi o que dele ouvi, certa
feita.
O
que trouxe o desportista para mais próximo do litoral piauiense foi o mesmo
tema que lhe fazia esquecer, pouco a pouco, a terra onde nasceu: o Parnahyba
Sport Club – time sobre o qual não se cansava de afirmar já haver conquistado o
título de campeão piauiense por mais de uma dezena de vezes.
E
ao tecer comentários sobre este escrete de sua paixão, não esquecia figuras que
honraram sua camisa azul e branca, da cor do céu, como costuma dizer: Raimundo
Boi, Zezé Boi e Mário Boi – boiada que atuou, por muito tempo, na difícil
função de goleiro, ao lado de outros, de outras posições, mas também de
esquisitos apelidos, dentre os quais, citava de modo pouco empolado, como era
do seu estilo: Babá, Bibita, Bido, Bigu, Bilé, Bilu, Bonitinho, Boré, Craveiro,
Cabaça, Cafuringa, Cangalha, Careca, Carlinhos, Camurupim, China, Cipó Colibri,
Dandão, Damisson Peru, Esquerdinha, Fefé, Formiga, Gringo, Ição, Laupe,
Leiteirinho, Lelé, Lili, Maurício Pantera, Mica, Nado, Netinho, Nena, Pombo,
Palanqueta, Pantica, Parabela, Pila, Pitá, Pitanga, Pica-pau, Puxa, Puxinha,
Quinha, Radiê, Sabará, Sargento do Tiro de Guerra, Sibiraba, Tamatião, Vicente
Rasga, Xixinó e Zé Pirró, sendo que todas estas esquisitices arrematava o
apaixonado – jogavam pensando muito mais na vitória de sua agremiação do que no
dinheiro – elemento predominante na mente dos jogadores de hoje.
Contava
também o Gilberto, nos bancos da Praça da Graça, não se lembrar de jogadores
tatuados (como a quase totalidade dos atuais) no seu tempo de atuação nos
estádios – locais hoje mais conhecidos por arenas. E justificava: “as tatuagens
não eram aceitas porque alguns juristas da época entendiam e ensinavam que as
tatuagens eram próprias de elementos de mau caráter, e os nossos atletas, pessoas
de bem, sabendo disto, não queriam ser assim classificados”.
E
para animar a conversa, certo dia o futebolista Gilberto aproveitou o início da
Copa do Mundo de 2014, quando latejava na cabeça de todo torcedor brasileiro a
lembrança do problemático pênalti ocorrido no jogo que marcou a abertura do
certame, ocorrido entre Brasil e Croácia, para rememorar um fato do passado
glorioso deste time do seu coração. Os seus ouvintes – aqueles que sempre lhe
consideraram, quer como homem intimamente ligado à educação parnaibana, quer
como ferrenho torcedor e exemplar ex-diretor desta vetusta agremiação fundada
em 01 de maio de 1913 – ouviram atenciosos e em silêncio, e eu no meio, o
curioso imbróglio que também envolve um pênalti.
A
história é antiga e aconteceu – descreveu com detalhes o narrador, dando provas
de que sua mente de quase um século ainda não havia se tronado bruxuleante pela
idade – no dia em que acontecia um jogo entre o Parnahyba Sport Club e o Tuna
Luso de Belém do Pará, no estádio que hoje é do Parnahyba. Mal começou o
espetáculo e lá vai o árbitro marcando um pênalti em favor do time da casa. Os
visitantes, não concordando com a marcação daquela falta, formaram logo um
grupo: jogadores, técnico, auxiliares e massagista e decidiram que não mais
continuariam com a peleja. A torcida começou a protestar e eles, acuados em um
canto do gramado, afirmaram que já estavam de saída para o Hotel Central, onde
foram hospedados. Neste momento desceu ao gramado o Capitão Benedito Alves da
Luz, que além de Presidente de Honra da agremiação parnaibana era, também, o
Comandante da briosa Polícia Militar, para dizer ao representante da agremiação
paraense que ele, na qualidade de chefe da milícia, tinha também um bom hotel
para hospedar atrevidos. E que este hotel chamava-se Arsenal.
E
finalizou o decente esportista dizendo que depois de pouca conversa o jogo
recomeçou; ficou tudo bem; deu um empate; a renda foi dividida entre os dois
times e os paraenses, ao sair da cidade, puderam ver através da janela do
ônibus que os transportava, o hotel que fora prometido pelo comandante. Tinha
realmente o nome de “Arsenal”. Foi construído para servir de depósito para as
armas e munições da Polícia Militar, mas já servia, como serviu por muito
tempo, como penitenciária onde se amontoavam criminosos de todas as espécies,
os judicialmente condenados e também aqueles que aguardavam julgamento,
cumprindo, indistintamente e por falta de outro lugar, a inconveniente e sempre
inservível penalidade máxima.
*Crônica
de Pádua Santos – APAL – Cadeira nº 01, com charge de Fernando Castro.
                                                                                                        

Deixe uma resposta