Vida – Boa, única e sem plural

Por: Benedito Gomes(*)

Um certo dia, que aliás não faz muito tempo,
estávamos conversando em algum lugar da cidade – éramos um grupo de seis a oito
pessoas. Me lembro que uns eram advogados, um era médico, três a quatro eram professores, todos pessoas cultas e eu ali, entre eles, na biqueira, tentando aprender alguma
coisa.
Falamos da evolução de um modo geral, do meio de
transporte, por exemplo. Pedro Alvares Cabral fez, de Lisboa a Bahia, em 1500, em
um mês e dez dias. Hoje se faz esse mesmo percurso em um jato em cinco horas.
Lembramos que atualmente os grandes navios cruzam o Estreito de Magalhães, no
Sul da Patagônia (Argentina), em um trecho gelado e perigoso, o que é sem dúvida
uma grande aventura. Ao mesmo tempo recordamos que o Fernão de Magalhães, que
dá nome ao estreito, passou lá em 1519 navegando em uma caravela, homem de
muita coragem, em sua viagem de circunavegação.
A conversa continuava indefinida e sem fins
lucrativos, quando passa distraído e discretamente um garoto pedalando uma
bicicleta de maneira silenciosa e sem pressa. Alguém do grupo olhou e disse: agora esse meio de transporte se chama “bike”. Concordamos e me veio a
lembrança que “discussão” entre garotos, agora não é mais brincadeira, o novo
nome é “bullying”. Muitas vezes o excesso de comida ou bebida o estômago
devolve via oral, com o honroso nome de vômito. agora mudou para refluxo. A
maioria das palavras do idioma inglês adaptadas para nossa língua, por exemplo, a nossa velha e conhecida “preguiça” agora é estresse.
O nosso expediente estava terminando. Sorrimos
bastante das velhas palavras com novos sentidos, quando alguém disse: vamos, está ficando tarde e Nossas Vidas correm risco. Aí não concordei e pedi a palavra. Eu
disse: amigo, vida não tem plural. Nós não temos vida própria e se tivéssemos não
morreríamos. A vida é um presente de Deus, não é propriedade nossa. O criador
do homem é o mesmo que criou tudo que se move no universo. E como houve dúvida
entre nossas vidas e nossa vida, eu lembrei que Gonçalves Dias, em 1847, em sua
canção do exílio, escreveu “Nossos Bosques tem mais vida, Nossa Vida, mais amor”. Quem sou eu para discordar. Na década de cinquenta o gaúcho Ademar Silva cantava
“quero beber na fonte dos teus lábios, um beijo pura sincero cheio de calor –
com as nossa bocas bem unidas – unir a Nossa Vida nas chamas ardente do meu
grande amor”
Já havia um consenso de que somos apenas seres vivos e
não titular da própria vida. Da baleia azul, o maior mamífero da terra, ao menor
animal existente no universo, todos bebem da mesma água, comem da mesma comida e
respiram o mesmo ar. A conversa continua quando lembrei que o grande compositor
e cantor Eurípedes Waldick Soriano escreveu: “meu coração te espera – meu
coração te chama – para unir Nossa Vida – em uma só vida – em um mundo de amor”.
Sabendo que não devemos usar nossas vidas, a não ser
com licença poética, não tivemos outra alternativa – entre abraços e gargalhadas,
pedimos a saideira e continuamos vivendo em paz. Sabemos que a vida é infinita
para seu criador, é linda e passageira para quem nela vive, e não é apenas para
você existir: a vida é para você viver com respeito e fé, acima de tudo.
(*)Benedito Gomes
Contador UFPI

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