Como é o Dia de Finados para os órfãos da Covid

G1 – “A gente não teve a chance de se despedir dele e isso é um fato que eu nunca apaguei da minha memória”. O lamento é da dona de casa Joelma Cruz, que perdeu o pai para Covid-19 durante a primeira onda da pandemia no Amazonas. Ele foi uma das pessoas enterradas em valas comuns durante a primeira onda da pandemia de Covid-19, que assolou Manaus em 2020.

Para quem não se lembra, entre abril e maio do ano passado, Manaus teve um dos maiores registros de enterros em 24h, chegando a 140 sepultamentos diários. Até então, antes da pandemia, a média era de 30 por dia.

Um ano e sete meses depois de vivenciar as cenas perturbadoras, com caixões empilhados em covas coletivas para suprir esse aumento da demanda por enterros, familiares de vítimas da doença relembram como foi suportar essa situação e contam como será o Dia de Finados, celebrado hoje.

O mecânico José da Cruz Magalhães, de 69 anos, foi uma das pessoas enterradas em valas coletivas. A filha dele, Joelma Cruz, conta que os últimos momentos que teve com o pai foram conturbados, sem chance de visitas e despedidas.

“Eu lembro exatamente que, no dia em que ele morreu, estávamos em uma média de 1,5 mil pessoas falecidas no Brasil. A imagem que eu tenho na minha cabeça é ele indo para o hospital. É uma imagem que eu nunca apaguei. Depois, eu nunca mais vi meu pai. Quando eu tive notícia dele por parte do hospital, ele já tinha falecido, dia 13 de maio”, relembra.

A dona de casa conta que, na época em que ele foi enterrado, além das valas coletivas, ainda havia restrições para impedir aglomerações durante os enterros, como a limitação do número de pessoas presentes no cemitério e a redução no tempo de sepultamento.

“Quando ele foi enterrado a gente não pôde se despedir dele. Só podiam ir três pessoas para o cemitério, no caso, eu e meus dois irmãos. Não deu para olhar nada dentro do caixão e só estava com o nome para identificar. A gente não teve oportunidade de se despedir. Foi feito aquele enterro ali, rápido, frio e tivemos de ir embora”, disse.

Processo similar foi vivenciado pela família de Natália Kelvin, que perdeu o pai, Francisco Victor da Costa, de 81 anos, para a doença em abril de 2020. Ela conta que até tentou que o pai não fosse enterrado em vala comum, mas não teve sucesso.

“Lutamos muito para não enterrarem em cova coletiva, mas ele já estava envelopado dentro daquele caminhão frigorífico, não teve jeito. Infelizmente, o máximo que a gente conseguiu foi colocar meu pai em cima dos três caixões da cova, com a esperança de que daqui a quatro anos consigamos tirá-lo de lá”, diz Natália.

“Foi uma situação muito triste e difícil para a família, o que a gente não deseja para ninguém ver uma pessoa que a gente ama tanto ser enterrada indignamente, como foi o enterro do meu pai”, comenta.

Do pai, Natália guarda na memória os bons momentos e carinho que a família sentia.

“Meu pai era um homem de 80 anos muito ativo. Acordava todos os dias às 5h para abrir o bar onde ele trabalhava e não tinha tempo ruim pra ele, era esperto e inteligente. Guardamos um carinho enorme por ele, para sempre”, diz.

FOTO: G1Covas coletivas

Trabalho em meio ao caos

Rosemberg Oliveira, de 30 anos, trabalha há cinco anos como coveiro no cemitério Nossa Senhora de Aparecida, localizado no bairro Tarumã, zona Oeste de Manaus, onde as valas comuns foram feitas. Ele conta que nunca tinha presenciado as cenas que viu na época.

“Eu me sentia triste porque muitas pessoas perderam seus entes queridos e ficavam desesperadas. Eu não conseguia nem ficar perto. Quando eles choravam, eu me afastava e assistia à cena triste. O que me chamou mais atenção foi quando vimos algo que nunca tinha acontecido no cemitério, de enterrar as pessoas todas encapadas. Fiquei bastante assustado naquele tempo”, disse.

Segundo ele, agora há uma nova oportunidade para as pessoas se despedirem dos parentes. “A gente sabe que vai ter uma grande movimentação agora, e eles merecem essa nova chance”, conclui.(pensarpiaui)

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