Dia da Consciência Negra: olhar o passado da formação do povo brasileiro

Em 2021, mais do que celebrar o Dia da Consciência Negra (em 20 de novembro), mais do que gritar palavras de ordem, mais do que colorir os corpos, mais do que dançar com alegria, para romper com o racismo estrutural no Brasil é fundamental olhar criticamente o passado da formação do povo brasileiro.

De acordo com o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), a formação do povo brasileiro é resultado da miscigenação de vários povos – os indígenas, os portugueses e os africanos. Posteriormente, os imigrantes europeus e asiáticos, especialmente a partir do século XIX. Assim, as nossas práticas culturais têm elementos e influências de diversos povos devido à colonização, à imigração e aos povos que já habitavam a terra dos povos originários.

Desde a formação do Brasil, os negros africanos são subjugados sob repressão, opressão, coerção e trabalho escravo, que contribuem para construir e desenvolver a noção discriminatória de “povo inferior”, em detrimento da culinária, da religião, as formas de vida e de outros valores da cultura negra.

No Brasil Colonial os negros foram (e, hoje, ainda são) explorados, violentados e humilhados nas grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar, como mão de obra escrava, fomentando o tráfico negreiro. Com a abolição da escravatura (13 de maio de 1888), aproximadamente 700 mil escravos foram jogados a própria sorte para enfrentarem novos desafios na condição de libertos.

Por isso, mais do que celebrar um dia de consciência negra urge trabalhar na raiz histórica do racismo à brasileira todos os dias e em todos os espaços sociais. Além repudiar as falas e gestos racistas é necessário refletir sobre como se construiu a prática de ódio ao negro.

A força para mudar a realidade hostil contra os negros no Brasil exige uma mobilização permanente pelo fim do racismo estrutural, que se expressa em diferentes níveis. Para tanto, deve-se contar com a participação de intelectuais, classes populares e, principalmente, com o envolvimento não somente dos negros.

Olhar o passado é relevante para entender por que, sendo 106 milhões de pessoas – mais da metade da população do país -, ainda hoje, no Brasil, os negros apresentam todos os indicadores sociais inferiores aos dos brancos. Logo, olhar o passado é entender por que as coisas estão assim e não são assim. De fato, celebrar um dia de consciência negra no país é uma conquista, mas não muda a realidade se não enfrentarmos as raízes do racismo estrutural – ou seja, como e por que chegamos ao racismo à brasileira; por que se tem a ideia de que a cor de pele define o seu lugar na sociedade?

Os negros estão espalhados por todo o território brasileiro, os maiores números estão no Nordeste e no Sudeste. Na transição do Império para a República, percebe-se que, para os escravos negros recém libertos, a única mudança foi da casa grande para os subúrbios, as favelas, as periferias e o submundo do país. Por isso, as políticas afirmativas são importantíssimas para enfrentar o racismo estrutural. Querer não é poder, mas sem conhecimento da realidade que nos trouxe até aqui pouco mudará no país, para melhorar a vida do povo negro.

Portanto, olhar o passado é uma forma de se libertar da ignorância sobre as amarras que nos prendem até hoje como um povo inferior. A condição de vida dos negros continua muito precária, como quando viviam em senzalas. Milhares de famílias estão confinadas em periferias insalubres, trabalham sem remuneração fixa, sem cidadania, com alimentação precária, sob ódio e repressão estatal com bastante violência.(pensarpiaui)

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