As mensagens escondidas nos epitáfios

 Por:Pádua Marques(*)
Para os mais jovens, epitáfios são aquelas inscrições em túmulos e
que de certa forma têm alguma mensagem sobre quem foi e o que fez aquele
que agora está debaixo da terra e certamente e pra felicidade de muitos
nunca mais há de voltar por estas bandas. Muitos foram bons, justos,
amorosos, inteligentes, caridosos. Em Parnaíba nós temos exemplos e mais
exemplos de grandes inscrições tumulares, as mais conhecidas são
aquelas da igreja matriz de Nossa Senhora da Graça e que despertam a
atenção dos de dentro e dos de fora.
Aproveitando esta proximidade do Dia de Finados, quando a gente fica
pensando na vida que leva e tendo a certeza de que mais dia menos dia
vai morar debaixo da terra, larguei a pensar que toda pessoa,
independente de posses, credo, instrução e nacionalidade, deveria
escolher um epitáfio. De preferência desses em latim, pra chamar atenção
e dar importância. E me ocorre aqui de dar várias sugestões de
epitáfios. Com um pouco de criatividade certas pessoas, políticos
principalmente, bem que poderiam assimilar esta minha modesta sugestão.
Praquele sujeito que em vida reclamou de tudo, até de dinheiro novo:
“isso aqui já foi bem melhor”. Praquele ranheta, chato, difícil de se
agüentar: “Não quero nem ver a cara de vocês”.  Um vagabundo, um tipo
que nunca quis nada na vida: “aqui não preciso de dinheiro”. Outro mais
esperto escolheria este epitáfio: “vocês que são vivos que agora se
entendam”. Quem levou a vida tagarelando bem que corre o risco de ter na
sua inscrição da catacumba este: “ruim aqui é porque ninguém fala
nada…”
Quem comprou no comércio e deu calote em todo mundo, até no Paraíba,
Macavi, Vera Coutinho, Zé do Santos, Banca do Louro, Bar Carnaúba,
Bicicleta da Tapioca, pode escrever no granito ou no cimento do túmulo
esta inscrição: “minhas dívidas aí se acabaram”. O medíocre, e na
Parnaíba têm muitos, escolheria esta inscrição: “saí daí de Parnaíba
como cheguei, insignificante”. E pra o ranzinza, tipo tia velha: “a
gente vê cada cara feia por aqui…”.
O bom de bico levaria pra posteridade esta máxima: “eu esticado aqui,
barriga pra cima e sem preocupação com porra nenhuma! Eita vida mais
besta! De gente mão de vaca nem a morte escapa. Certamente que deixaria
um recado pras seus descendentes e a pérola seria esta: “vocês têm agora
muito é que trabalhar ou “cansei de sustentar vagabundo”. Outra pra
devedor em tudo o quanto era canto da Parnaíba: “devia, nunca neguei e
agora é que não pago mesmo”.
O celibatário, como sempre tentando se justificar porque não casou,
bem que poderia deixar esta inscrição no granito: “eu não nasci pra
semente”. E o pobre, o lascado que sempre viveu de casa alugada:
“finalmente moro no que é meu”. Mas até aqueles que foram humilhados
poderiam ir à forra com esta inscrição: “aqui todo mundo é igual”. O
valente, aquele tipo que nunca levou um tantinho assim de desaforo pra
casa escreveria este epitáfio: “cheguei aonde todos têm medo de chegar”.
Temos ainda a sugestão praqueles casos de sujeito encrenqueiro, tipo
aquele que vai pra festa no M Show, enche a cara e fica provocando todo
mundo pra briga: “daqui não são, daqui ninguém me tira”. E praquele que
vivia reclamando das visitas fora de hora: “agora vocês só me visitam
uma veizinha no ano, né?”. E o fresco, aquele sujeito esnobe,
degenerado, metido a artista, que adorava roer e olhar pras unhas, tipo
Félix, da novela Amor à Vida: “sou alérgico a flores naturais…”.
E praqueles que ainda não se encontraram, não caiu a ficha que
morreram e graças a Deus estão agora no mais absoluto ostracismo: “está
muito escuro e não consigo encontrar a maçaneta da porta”. Mais uma pra
um avarento: “engraçado, eu sinto, eu tenho a impressão que tem uma
moeda no bolso detrás da calça”. E praquele que adorava badalação, festa
em tudo quanto era lugar, fosse Parnaíba, na Ilha Grande, na Canabrava,
Araioses, Tutóia, Baixa da Carnaúba, o diabo onde fosse: “começo a
achar aqui tudo muito monótono”.
Mas vamos em frente. Pra o sujeito que era enturmado, não perdia uma
balada começando pela Trilhus. Tipo que saía na sexta-feira só com a
carteira de identidade, de moto, sem capacete e uns colegas de trabalho e
voltava na segunda depois do meio-dia cheio de razão e ainda tinha a
cara de pau de telefonar pro patrão dizendo que teve problemas de saúde
na família. Pra esse tipo e que eu conheço vários aqui nesta Parnaíba:
“porra, cadê os outros?”. Uma sugestão de epitáfio praquele cara
folgado: “aqui está muito apertado, me sinto como se estivesse num
elevador esquisito” ou ainda “me tirem daqui!”.
Em tudo que é canto tem gente gaiata. Até no cemitério, aquele
condomínio fechado, seguro, silencioso, pesadelo de todo mundo um dia na
vida e onde sempre tem vaga, pra rico, falido, remediado, pobre,
lascado, ladrão maconheiro, valente, medroso, mulher, velho, menino,
pescador, padre, sindicalista, médico, advogado, vereador, deputado,
tudo que é tipo de gente. E como eu estava dizendo, pro gaiato, aquele
que se achava, bem que cairia bem este epitáfio: “sinto muita falta da
sacanagem” ou “deixei uma pá de gente chorando”.
Praquele que vivia nas nuvens, esquecendo de tudo: “tinha uma
coisinha pra falar, mas não consigo lembrar”. O de bem com a vida, nunca
esquentava com coisa nenhuma, que vivia enxergando tudo azul com
bolinhas brancas, bem que merecia no túmulo esta inscrição: “quais são
as novidades?”. O voluntário, que vivia ajudando os outros e se metendo
nessas campanhas pra tudo que é tipo: “quem não gosta daqui que levante o
braço”. Finalmente uma sugestão de epitáfio praquele sujeito
desconfiado com tudo e com todos: “tem alguma coisa cheirando mal por
aqui”.
(*)Pádua Marques é jornalista e escritor

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