Morre “Seu Matea”, pescador que defendia o mangue e era guardião da praia de Macapá

José de Araimatéia, o
José de Arimatéia, o “Seu Matea”: morte repentina

A pequena e acolhedora comunidade do povoado de Macapá, localizada no litoral do Piauí, em Luís Correia, amanheceu de luto na segunda-feira (16). O sorriso largo e a prosa fácil de José de Arimatéia Lopes da Cruz, carinhosamente conhecido como “Seu Matea”, se calaram na noite de domingo (15). Aos 64 anos, o pescador e proprietário de um dos bares e restaurantes mais queridos e frequentados da praia de Macapá faleceu de forma repentina, deixando a família, amigos e frequentadores em choque.

De acordo com informações de familiares, “Seu Matea” começou a se sentir mal e foi imediatamente levado a uma unidade de saúde, onde passou por uma cirurgia de emergência. No procedimento, os médicos constataram um quadro grave de apendicite supurada. A condição ocorre quando o apêndice inflamado se rompe, liberando pus e fezes na cavidade abdominal, o que eleva drasticamente o risco de infecção generalizada (sepse) e peritonite.

Apesar da intervenção cirúrgica, a gravidade da infecção se espalhou, complicando o quadro clínico e levando ao óbito. A perfuração do apêndice é uma das complicações mais sérias da apendicite e uma das principais causas de mortalidade relacionada à doença, especialmente quando o diagnóstico ou o tratamento sofre atrasos.

O guardião do mangue

Mas a dor que toma conta de Macapá não é apenas pela perda de um comerciante. A comunidade perde um defensor incansável do meio ambiente. Nascido e criado na confluência do mar com o Rio Cardoso, “Seu Matea” era muito mais do que um exímio pescador e catador de caranguejo. Ele era um verdadeiro vigia do manguezal.

Homem de origens simples e sabedoria profunda, “Seu Matea” dedicava parte da sua vida a proteger o ecossistema que sempre o sustentou. Ele impedia ativamente o corte predatório das árvores do mangue e zelava pela preservação das espécies de peixes e caranguejos, garantindo não apenas o sustento da própria família, mas de toda uma cadeia que depende da saúde ambiental da região. Sua luta diária era um exemplo vivo de que é possível viver da pesca de forma sustentável.

“Prosa” boa e calor humano

Frequentar o bar e restaurante do “Matea” nunca foi apenas sobre saciar a fome ou a sede. Era um encontro marcado com a cultura local. “Seu Matea” recebia seus clientes com a alegria contagiante de quem amava o que fazia. Divertido e acolhedor, ele tratava a todos como velhos amigos, sempre pronto para uma boa “prosa”.

Entre uma conversa e outra, ele falava com brilho nos olhos sobre as belezas naturais de Macapá, sobre as histórias da vida na beira da praia e sobre as tradições da comunidade onde criou seus 12 filhos ao lado da esposa. Era, para muitos, a própria alma do povoado, um guardião não apenas da natureza, mas também da memória afetiva e da hospitalidade piauiense.

Seu Matea deixa a viúva e 12 filhos. O sepultamento será na tarde desta segunda-feira (16), no cemitério do próprio povoado de Macapá, onde será velado para sempre ao som das ondas e do vento que tanto amava.

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