Ciro é vítima de um jornalismo que deixou de ser profissional

Ciro virou o bode expiatório de um jornalismo de militância

Ciro virou o bode expiatório de um jornalismo de militância

Há um vício antigo e cada vez mais perigoso em parte da mídia tradicional brasileira: tratar a manchete como instrumento de poder político, e não como compromisso com a verdade. O episódio envolvendo a Folha de S.Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Ciro Nogueira expõe esse problema de forma cristalina.

A Folha publicou que Lula e Ciro teriam se encontrado no dia 23 de dezembro, em Brasília. O teor da conversa também era uma bomba na estrutura da nova república, Ciro minaria a campanha de Flávio Bolsonaro em troca de sua eleição no Piauí. O detalhe não era irrelevante. Mas essa data estava amplamente documentada como impossível. Registros públicos, imagens, postagens em redes sociais e compromissos oficiais colocavam Ciro no Piauí ao longo de todo o dia 23. Não se tratava de versões divergentes, mas de fatos objetivos contra uma informação errada

Diante da inconsistência, o jornal fez uma correção. Em nota discreta, publicou: “Erramos: o texto foi alterado”. O encontro, afinal, teria ocorrido no dia 22 de dezembro, e não no dia 23, como afirmava a versão original. Mas Ciro foi além, disse que na verdade não houve encontro dia 23 e nem dia 22, não houve reunião com Lula e muito menos com esse teor. Diante do erro da Folha o senador tem muito mais que o benefício da dúvida.

A correção, porém, não resolve o problema central. Apenas o expõe.

Primeiro, porque a data errada foi o coração da manchete. Foi ela que deu verossimilhança à narrativa, pautou redes sociais, gerou especulações políticas e alimentou intrigas e foi usada para atacar Ciro. Quando se corrige a data depois, o estrago já está feito. A manchete circulou, o dano reputacional ocorreu e a dúvida foi plantada.

Segundo, porque, em vez de assumir claramente o erro editorial e explicar como uma informação tão básica falhou, a Folha passou a sustentar a matéria sob um segundo argumento ainda mais frágil: o de que teria ocorrido um encontro sigiloso, sem data inicialmente precisa, sustentado por cinco fontes anônimas.

Não se sabe exatamente quando ocorreu, só que agora será dia 22, não mais 23.
Não se sabe quem estava presente.
Não há registros, imagens, agendas ou confirmações públicas.
E, até a correção, nem a data estava certa.

Ainda assim, a reportagem foi tratada como fato político relevante, não como hipótese, rumor ou informação em apuração. O jornal não apresentou prova material alguma. Apenas o expediente do “segundo fontes ouvidas pela reportagem”, elevado à condição de sustentação única da narrativa.

O uso de fontes anônimas é legítimo em situações excepcionais. O que não é legítimo é construir uma reportagem inteira sobre anonimato, sem lastro verificável, errando um dado elementar como a data e só reconhecendo o erro depois que ele se torna insustentável.

Quando usada e munida de provas, como no caso Master, em que Malu Gaspar e companhia confrontaram informações anônimas com datas e documentos, o jornalismo se torna profissional e investigativo. No caso da Folha, houve uma lambança assinada por três jornalistas, que não tiveram a capacidade de fazer uma autoanálise dos fatos.

A correção discreta não repara o desequilíbrio entre o poder da manchete e a timidez do ajuste posterior. A mídia tradicional segue exercendo enorme influência política sem responsabilidade proporcional ao impacto que causa. Publica, insinua, corrige e segue adiante.

Num ambiente político já polarizado, esse tipo de prática não esclarece o leitor. Envenena o debate público. Quando a narrativa passa a valer mais que o fato, o jornalismo deixa de informar e passa a operar.

Exigir rigor factual, transparência e correções à altura do erro não é atacar a imprensa. É defendê-la. Porque, no fim, quando a manchete erra, especialmente sobre datas e fatos verificáveis, quem perde não é apenas o alvo da intriga. É a credibilidade do jornalismo, esse sempre a maior vitima.

Fonte: Portal AZ

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.