Com parentes e amigos, a política piorou — e, com ela, piora o Piauí
Não por falta de discurso, nem por ausência de promessas. Piorou porque o nosso ecossistema público se acostumou a trocar princípios por conveniências e a aceitar como “normal” aquilo que, ontem, era apresentado como escândalo.
O curioso — e revelador — é que, na política do passado, por mais dura que fosse a disputa, havia um limite tácito: o poder não se apresentava como herança familiar explícita. Hugo Napoleão nunca colocou filhos para disputar eleições, nem fez da política um projeto hereditário declarado. O mesmo vale para seu primo Freitas Neto.
O cargo de vice-governador e a suplência de senador, na lógica daquele tempo, eram fruto de acordos políticos — não de laços de sangue apresentados como credenciais.
Hoje, a realidade é outra. A promessa que nasceu para confrontar o velho padrão começa a reproduzir, com nova estética, a mesma lógica que dizia combater.
O Piauí vê, sem o choque moral que deveria causar, a tentativa progressiva de concentração familiar do poder. Depois de a esposa, Rejane, ocupar mandatos de deputada estadual e federal e de ser alçada ao Tribunal de Contas do Estado, Wellington abre espaço para mais um movimento: o filho na política. O roteiro é conhecido. A linguagem muda, a embalagem melhora, mas o conteúdo permanece: a política como continuidade doméstica, não como projeto público
A contradição
É justamente aí que mora a contradição histórica: quem um dia falou em “combater oligarquias” hoje se mostra um velho oligarca, flerta com o mesmo mecanismo — o poder como patrimônio, como linha sucessória, como herança passada de pai para filho. Literalmente.
E quando um Estado naturaliza esse tipo de arranjo, ele paga um preço alto: não apenas pelo que se faz, mas por aquilo que se permite.
Tem alguém levando tudo
E aí surge a figura de Wellington Dias, 40 anos depois do combativo militante petista, se apossando de tudo no Estado, como se fosse o seu dono, esculpido exemplo da canção do sertanejo Zé de Camargo: “Tem alguém levando lucro
Tem alguém colhendo o fruto
Sem saber o que é plantar
Tá faltando consciência
Tá sobrando paciência
Tá faltando alguém gritar”
(Portalaz)