Por: Miguel Dias Pinheiro*
A construção do Porto de Luis Correia parece contagiar a mente de cada governante que senta na cadeira do Palácio de Karnak. O mais recente, Zé Filho, já convocou a equipe para pedir agilidade no recomeço da obra, na qual foram enterrados milhões de reais e que acabou virando “lama marítima”.
A história do porto tem de tudo, passando por licitações viciadas, ausência de estudo de impacto ambiental, improbidade administrativa até chegar à corrupção. Sem se falar no bloqueio de bens de gestores que pelo porto passaram e foram flagrados com a mão na “botija”. Coisa horrorosa!
Mesmo diante desse “caos”, cujo imbróglio está sendo questionado na Justiça Federal, nosso governante insiste na conclusão da obra e, cegamente, não sinaliza para o fato de que toda aquela estrutura está comprometida, condenada tecnicamente pela engenharia. Aquilo lá virou “morada de cupim”, dizem os engenheiros especialistas, como foi o caso do inspetor do Crea, Rodrigo Uchoa (corrosão marítima é como cupim em madeira). A estrutura existente foi corroída e não tem mais condições para viabilizar o recomeço da obra. Tem-se que começar praticamente do zero.
Nas entrelinhas das falas de nossos dirigentes, nota-se que o objetivo é unicamente carrear mais recursos públicos para a obra. Fora a engenharia, ninguém em cada um dos governos do Piauí teve – e tem – a preocupação direcionada para a parte técnica e estrutural do porto, que tem servido nas últimas décadas apenas para se “jogar” dinheiro para virar lama em Luis Correia e “engordar” conta bancária.
Mais do que nunca, é preciso ouvir a voz da razão em relação à construção do Porto de Luis Correia. Não podemos permitir que se continue no Piauí alimentando essa ignomínia, esse aviltamento, essa desonra contra a sociedade. É uma infâmia não admitir-se e reconhecer-se que o tempo inutilizou a estrutura da obra que vem sendo construída há 40 anos. Insistir nisso é desperdiçar dinheiro público, continuar “irrigando” a corrupção na obra do porto.
O mais recente vilipêndio, a última mácula, o maior sacrilégio dos últimos tempos contra foi praticado nos últimos anos, quando colocaram uma estrutura nova em cima de uma antiga sem os cuidados de engenharia como a recuperação dos ferros e demais peças lá existentes há quase quatro décadas. Não é preciso ser nenhum “expert” no assunto, mas o bom senso sinaliza que toda essa construção está contaminada, viciada e imprestável.
Então, quem acredita em uma ação legítima de governo? Ninguém! Até hoje não se discutiu esse porto com a seriedade necessária, colocando os pingos nos “ii”. O único objetivo é tirar, “surrupiar” recursos públicos da União Federal para “enterrar” na obra de maneira irresponsável. Corrigir e evitar novos desmandos, nem pensar!
Li recentemente um estudo técnico de engenharia e fiquei deveras assustado com o assoreamento do Porto de Luis Correia. O assoreamento é um fenômeno muito antigo e existe há tanto tempo quanto existem os mares e rios do planeta. O processo natural evita, por exemplo, que o fundo dos oceanos entupam com milhões de metros cúbicos de impurezas orgânicas. O assoreamento, em verdade, acaba por virar uma “lama marítima”.
Ainda segundo o estudo, para desassorear o Porto de Luis Correia seriam necessários retirar do oceano milhões de metros cúbicos de lama. Para se ter uma idéia, seriam necessários 500 mil caçambas grandes para carregar todo esse lixo orgânico. Isso mesmo, vou escrever por extenso: “quinhentos mil”! Se enfileiradas, daria uma fila gigantescas de caçambas de Teresina a Parnaíba.
O assoreamento afeta a navegabilidade do porto, obrigando sua drenagem e outras ações corretivas. Sem isso, nada feito! O estudo faz uma indagação: “Onde colocar toda essa lama?” Na cabeça dos piauienses, de nós otários, jamais!
Então, qualquer pedido de recursos federais para o recomeço da obra deverá esbarrar em estudo técnico de viabilidade tanto estrutural como econômica junto às esferas federais. Não posso acreditar que a União continue sendo vítima de “calotes”. Todos esses estudos são no sentido de que o porto está definitivamente condenado. Portanto, é “malhar em ferro frio”, perder tempo com um problema irremediável. Insistir no erro é burrice!
(*)advogado
