A brutal transformação do homem em animal!

Por:Fernando Gomes(*)
No Brasil, a violência, sobretudo urbana, está no centro do dia a dia e ocupa as manchetes dos jornais. Ela é assunto de especiais para a TV e, mais que tudo, assombra as consciências. De tal forma é ameaçadora, recorrente e geradora de um profundo sentimento de insegurança. Essa evolução é sintoma de uma desintegração social, de um mal-estar coletivo e de um desregramento das instituições públicas.
A violência explodiu na percepção dos brasileiros como o principal problema do país. O salto da violência ao posto de maior problema do país ocorre após uma longa sequência de casos: o do garoto Mailson Kelvin, parnaibano brutalmente assassinado por outro garoto, após ser abordado em roubo de um celular na noite do último dia 10 de julho; igualmente cruel são os casos de balas perdidas, atuação de milícias em favelas cariocas e, mais recentemente, o caso da auxiliar de serviços Cláudia da Silva Ferreira que foi baleada durante uma operação policial. Testemunhas contaram que ela foi colocada no porta-malas do carro da polícia para ser levada ao hospital. No entanto, durante o trajeto, o porta-malas abriu e a auxiliar de serviços caiu, sendo arrastada pela rua por cerca de 250 metros.
A violência brutal está em todas as cidades. Outro dia, a polícia encontrou partes de um corpo humano esquartejado em sacos plásticos espalhados pelas ruas de Higienópolis, bairro nobre na região central da capital paulista. Outra barbárie foi o caso da menina Ana Clara, de seis anos, queimada durante os ataques aos ônibus em São Luís. Casos para ilustrar esta insana postura humana não nos faltam… O que está errado? Em que mundo vivemos? O que estamos produzindo na sociedade? Monstros? Animais?
O homem e a mulher estão se tornando animais ou a sociedade tem tratado alguns homens e mulheres como animais? A reflexão nos leva a compreender que as pessoas não nascem para ser bandidos, isso é fruto das relações sociais desiguais. Prisões, leis rígidas, policiamento nada disso vai conter o problema da violência. O poder público insiste em não enfrentar a raiz da questão: educação de qualidade e trabalho digno para todos. Mas quem tem a coragem e a grandeza de enfrentar a situação?
Quando não se oportuniza ao homem as condições materiais de dignidade humana, ele vira fera. Não sou eu que afirmo, mas a animalização do homem é um fenômeno que pode ser abordado de diferentes maneiras. Desde a consideração do homem que é animalizado por realizar atos não humanos até àqueles que são tratados pela sociedade como animais.
Quando o homem livremente se animaliza pelos seus atos é possível considerá-lo como um doente para si e para a sociedade. Neste caso, ele é classificado como um doente e a síndrome que o acomete bem merece um estudo especializado. O homem que é animalizado pela sociedade, o famoso “excluído”, merece o resgate de sua dignidade.
O dicionário Aurélio recolhe animalizar como sinônimo de tornar bruto, embrutecer, bestializar.Vale lembrar que o homem tem a razão predominando sobre o instinto, e o animal só o instinto. Se o animal faz algo, o faz por instinto, mas se o homem deixa de usar a razão, como seu instinto é rudimentar, ele faz algo que não é próprio do homem. Animalizar é um eufemismo, pois infelizmente ele reduziu seu atuar a um reflexo, com algo que tem de mais precário: seus instintos.
Deixar-se levar pelas tendências da maioria, e quando menos se espera, acaba-se como um animal de um rebanho. O homem se aproxima do animal a partir do momento em que esquece a sua dignidade, seus valores, sua personalidade e se subjuga a uma situação onde sofra de alguma forma um dano físico, moral ou seja impedido em sua liberdade.
Logo, a raiz da violência está no modelo de organização da nossa sociedade: hipócrita, excludente e desigual. Criamos uma “bolha” que está explodindo. Explode a violência exponencialmente!
A violência gera o medo, mas este gera igualmente violência. Trata-se então de um círculo vicioso que se instala, uma psicose coletiva que é preciso romper a qualquer preço e cujos únicos beneficiados são certos lobbies da segurança, como as firmas de vigilância, as milícias privadas, as companhias de seguros, os esquadrões da morte, etc. Violência gera violência.
“Justiça com as próprias mãos” já figura como uma atitude normal e necessária. Onde vamos parar?
(*) Fernando Gomes, sociólogo, cidadão, eleitor e contribuinte parnaibano
Fonte: Jornal “Tribuna do Litoral”
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