Os números são públicos e colocam uma cifra bilionária sob os holofotes. Levantamento realizado a partir dos registros públicos aponta que Solução, Poty e Soma, juntamente com consórcios dos quais participam, somam R$ 2,721 bilhões em 199 contratos com o Poder Executivo do Piauí desde 2023. No centro desse levantamento aparecem dois nomes muito próximos do governador Rafael Fonteles: Felipe de Santana Machado, o Felipinho, identificado por diferentes veículos locais como amigo próximo e até “um dos melhores amigos” do governador, e Francisco da Costa Araújo Filho, o Araujinho, sogro de Rafael Fonteles. Felipinho está ligado à Solução e à Poty. Somente essas duas construtoras assinaram R$ 1,647 bilhão em contratos, o equivalente a 60,5% dos R$ 2,721 bilhões apurados no levantamento.
E há outro dado: levantamento feito sobre os empenhos estaduais apontou R$ 720,9 milhões pagos às duas empresas de Felipinho em aproximadamente três anos e meio, sendo R$ 554,2 milhões para a Solução e R$ 166,7 milhões para a Poty. Outros R$ 229,2 milhões foram identificados em pagamentos a dois consórcios que levam o nome de uma dessas empresas. Do outro lado está Araujinho, sogro do governador e ligado à Construtora Soma. Outro levantamento sobre a base de empenhos estaduais apontou R$ 240,9 milhões em 343 notas de empenho, considerando empresas, consórcios e registros em nome próprio associados ao empresário entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. A concentração é especialmente forte em obras de infraestrutura.

Gov. Rafael, o sogro Araujinho e Felipinho
Dos R$ 2,721 bilhões em contratos identificados no levantamento das três construtoras e seus consórcios, R$ 2,647 bilhões — 97,3% — estão relacionados a pavimentação, incluindo asfalto, estradas vicinais e calçamento. E não se trata apenas de números que nunca chegaram aos órgãos de fiscalização. Em junho de 2026, o Tribunal de Contas do Estado determinou cautelarmente a suspensão de obras do Contrato nº 079/2024, da Secretaria de Transportes com a Construtora Solução, no valor de R$ 73,6 milhões, após fiscalização apontar, entre outros problemas, possível superfaturamento de aproximadamente R$ 2,45 milhões relacionado à metodologia de execução e pagamento de meio-fio. A empresa ligada ao sogro do governador também entrou no radar do Ministério Público do Piauí, que instaurou procedimento para apurar possíveis irregularidades em contratos do DER com a Construtora Soma.
A existência dessas apurações, é importante registrar, não significa que favorecimento ou ilegalidade tenham sido comprovados. O que está documentado é a dimensão financeira: R$ 2,721 bilhões, 199 contratos e três construtoras, com empresas ligadas ao sogro e ao empresário apontado por veículos locais como um dos melhores amigos do governador ocupando posições relevantes nesse conjunto. São os “abençoados” dos contratos públicos. Diante de quase R$ 3 bilhões, a questão que merece resposta não pode ficar escondida no meio dos números: como se deu tamanha concentração de contratos e qual foi a concorrência efetiva em cada licitação? É dinheiro público. E cifras bilionárias exigem fiscalização, transparência e explicações públicas. (Silas Freire/Encarando)