ANTES DE CONHECER O MAR

Vittorio Medioli
(O Tempo)
– Jorginho, o que você quer ser quando adulto?
– Comandante de navio!
Jorginho, com 17 anos, sem um tostão no bolso, sem o que fazer, com o
pai desempregado, exposto aos riscos das ruas, acabou se alistando numa
quadrilha de traficantes. Sem nunca ter pisado na areia das praias, com
18 anos tombou numa favela de Belo Horizonte ao defender uma boca de
fumo.
História curta e triste, porém real.
Culpados disso? Todos. Menos culpado aquele que procura, na falta de
alternativa, discutir o problema; ainda menos culpado quem se dispõe a
amparar esses jovens, apesar do alto risco e de nenhum retorno
econômico. Precisam-se de missionários e santos para se devotar a essa
causa.
Covarde nessa moldura social é a lei que dificulta e persegue quem
procura empregá-los numa atividade lícita. “Dura lex, sed ‘burra’”.
Constata-se com pesar que não existe obrigatoriedade para o ensino
médio, dessa forma o jovem, ao término do ensino fundamental, se
encontra num campo minado de indefinições, condenado à inação, à
vadiagem, a começar a vida como peso morto nas costas de famílias
atormentadas pela pobreza. Exatamente numa idade crítica e de plena
transformação, de vigor físico, mas de incrível fragilidade psicológica e
moral. O mundo conspira, hoje como nunca, contra o jovem e levanta
legiões de incomodados com os excessos e desvios comportamentais de uma
exuberância não domesticada. Há quem procure tampar o sol baixando a
responsabilidade penal para 16 anos, deixando as causas intocadas e o
resto ao deus-dará. À sociedade os direitos, aos jovens as penas.
Tivessem pelo menos a possibilidade de se organizar numa ONG, esses
jovens poderiam se transformar de abomináveis “pivetões” em um movimento
reivindicatório ao estilo sem-terra, desfilar nas praças, reclamar a
devida atenção, entrar na pauta. Mas, pelo fato de não possuírem na
bagagem experiência e cultura, cada um para si e Deus para todos. A eles
a sociedade não reserva a atenção que merecem. inútil dizer, a
injustiça cresce onde já é intolerável.
Alguém batendo o “mea-culpa” no peito? Infelizmente, não. O silêncio é
sepulcral em volta do Jorginho que sonhava subir num navio e tombou
antes de ver o mar.(Fonte:Tribuna da Internet)

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.