As compras no shopping center e o voo atrasado

Por:Pádua Marques(*)

Dois
acontecimentos, digo sem exagero, devem mudar e marcar radicalmente a vida social,
política e econômica de Parnaíba dentro dos próximos meses: o primeiro, a inauguração
de um shopping center, diga-se de passagem, o primeiro shopping center da
cidade com todas ou quase todas as características próprias dos outros
shoppings centers já instalados há décadas nas médias e grandes cidades e
capitais brasileiras, na comprida, elegante e confortável avenida São Sebastião
pra onde a atividade comercial está se movimentando e radicando nos últimos
trinta anos.
Não poderia
ser diferente. Faz tempo que a atividade comercial de Parnaíba saiu da intrincada
região do centro histórico, avenidas Álvaro Mendes, praças Lima Rebelo, Coronel
Jonas, as ruas Marechal Deodoro, Pedro II, Humberto de Campos e Almirante Gervásio
Sampaio, todas mais parecendo veredas asfaltadas, pra uma região mais arejada,
aberta e com capacidade pra ainda daqui a muitos anos receber grandes lojas, postos
de combustíveis, supermercados, lanchonetes, esses estabelecimentos tão modernos
e que tem uma população cativa de jovens, estudantes e turistas.
Convenhamos,
mas ainda tem gente nesta Parnaíba, gente que não entrou no século XX e
dificilmente vai chegar ao século XXI, que tem saudades daquela situação
caótica do centro velho, com suas lojas feias e mal decoradas, com suas
atendentes mais parecendo múmias de tão caladas e sisudas, as lanchonetes
cheirando a azeite de coco e leite azedo, ruas imundas com lixo por tudo quanto
é lado, cachorros quase com a cara dentro do prato do cliente, buracos,, carro
buzinando no seu pé do ouvido, esgoto  escorrendo
a céu aberto, pessoas dementes incomodando nas portas das lojas, mais parecendo
Bombaim.
O centro
velho de Parnaíba já deu o que tinha de dar. Dentro de mais alguns anos, se já
não agora bem próximo, vai servir pra poucas atividades, principalmente aquelas
atividades nas repartições públicas. Porque a partir de janeiro Parnaíba terá
seu primeiro shopping center, um empreendimento de peso e visão empresarial
moderna, bem diferente daquela que se instalou na Parnaíba na época de Simplício
Dias e que ainda acham alguns que deve permanecer por mais dois ou três
séculos. Parnaíba precisa e urgente entrar no século XX.
Parnaíba
precisa enterrar e esquecer seu passado de pobreza e acanhamento, essa coisa de
ainda ter saudade de lamparina e de mascar fumo, esquecer uma economia de pé de
balcão, essa coisa bem rua Tabajara e Guarita. Vamos entrar no ano de 2014 com
o primeiro estabelecimento da modernidade comercial da Parnaíba, símbolo do capitalismo,
este sistema que mesmo tendo quem não goste, tenha lá seus detratores, ainda ao
que me consta é capaz de produzir riqueza. Mas não vamos entrar nessa discussão
agora. O certo é que teremos nosso tão esperado shopping center. 
              
E eu disse
lá na frente que traria mudanças sociais, políticas e econômicas. Vou falar que
este shopping vai fazer muita gente sair de casa. Gente que nunca pensou neste mundo
velho de mofo das padarias antigas vai agora circular em ambientes limpos, de gente
educada, novos costumes, convivendo com gentes de fora, principalmente turistas
acostumados com estes estabelecimentos nas suas terras de origem. Esta é a
mudança social aventada. Serão, portanto novos hábitos. Com relação ao lado
político certamente a instalação de um shopping center confere a qualquer
cidade, por menor que seja característica de centro mais adiantado com a circulação
constante de deputados, senadores, governadores, funcionários públicos.
Um exemplo
disso é o Teresina Shopping, por onde está sempre este público. E é ali entre
um gole de café ou de cerveja naquelas elegantes avenidas cheias de luzes, com gente
fazendo suas compras ou simplesmente passeando e olhando vitrines que grandes decisões
políticas muitas vezes acabam sendo tomadas. Parece uma bobagem fazer esta referência,
mas deve ser levado a sério. Quem sabe numa conversa de pé de balcão do restaurante
não saia decisão pra essa ou aquela candidatura, composição partidária, uma
obra, uma nomeação importante. Pra encerrar a história do shopping center: será
inaugurado fora do período natalino. Que pena! Bem que poderia, se dependesse
de nós clientes, ser agora quando a cidade está indo todo santo dia às compras.
Que bom seria que já nesse ano que termina os parnaibanos pudessem estar no seu
shopping center, circulando pelos corredores com suas vitrines enfeitadas.
Crianças sorridentes, pais e mães abrindo a burra na hora de comprar isso ou
aquilo. E aí a gente se daria conta de que não teria mais que sair daqui pra
ver o Papai Noel do João Claudino no Paraíba do Teresina Shopping.
Mas uma
situação me causa preocupação com a entrada em funcionamento deste shopping
center: a constante interrupção do fornecimento de energia elétrica. Shoppings são
empreendimentos que pela sua condição muitas vezes dependendo do tamanho, consomem
a energia equivalente de uma cidade de porte pequeno. Imagine se começa a faltar
energia com relativa frequência. Seria um caos completo sem o ar condicionado, a
iluminação de lojas, cinemas, praças de alimentação, supermercados, controles
de acesso e segurança. Isso me assusta e preocupa. Da mesma forma que a falta
de água.
A outra
situação fora de época e que ainda vou abordar noutro artigo é o início das atividades
do aeroporto somente em fevereiro. Bem que poderia ser agora. A cidade está
cheia de conterrâneos que moram fora, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, Belém e
Brasília. E é esse pessoal, funcionários públicos, empresários, executivos,
professores, autoridades políticas, que sempre todo ano por essa época pegam as
estradas pra chegar e passar o Natal e o Ano Novo com a família, pais, irmãos,
tios. Vem rever e matar a saudade da boa terra. Chega aqui, não tem avião. Tem
que ir até Teresina.
É esse
pessoal que anda de avião. Traz a burra cheia de dinheiro pra fazer compras, levar
souvenir, que antigamente, no tempo do sabonete Glicerol a gente chamava era de
“lembrança”. É esse pessoal que vai pra shopping lá onde mora. É esse pessoal
que iria agora pelo Natal pra Beira Rio, Pedra do Sal, Atalaia, Cajueiro da
Praia, Barrinha. De repente é esse pessoal que traz um amigo, a noiva, a outra,
a secretária, um colega de trabalho da repartição ou da faculdade e que sempre
ouviu falar de Parnaíba e que estava esperando que um dia descesse avião por
aqui.
Mas se os
voos não deram ainda pra este final de ano a gente não vai desanimar não. Vamos
continuar acreditando nesses dois equipamentos importantes, shopping e os
aviões da Azul, e que nos colocam agora em pé de igualdade com tantas cidades brasileiras,
principalmente vizinhas como Sobral e Tianguá, aqui bem pertinho no Ceará. A
gente agora tem é mais é que se orgulhar de Parnaíba, dizer que a coisa agora vai
pra frente. A gente agora tem mais é que estufar o peito, se sentir importante
e igual a tantos outros. Nada de querer numa altura dessas andar falando de
quitanda e de carroça em meio de gente.
(*)Pádua
Marques é jornalista e escritor

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