Às vésperas do Natal, fila do osso atinge tamanho recorde e dobra quarteirões

G1 – Às vésperas do Natal, a fila de famílias esperando doações de ossinhos em um açougue no Bairro CPA 2, em Cuiabá, cresceu mais de 60%. Algumas pessoas chegaram na tarde do dia anterior e outras durante a madrugada. Eram tantas pessoas à espera, nesta quinta-feira (23), que a fila se estendia por cerca de cinco quarteirões.

A fila começou a ter repercussão em julho deste ano, aliado ao crescimento do desemprego. Desde então, o número de interessados só aumentou. E, na última segunda-feira (20), a Secretaria de Assistência Social do município fez um levantamento, apontando que havia 160 famílias que dependiam dessa doação e passaram a ser monitoradas pelas instituições de assistência social.

Mas, nesta quinta, a equipe do açougue que trabalha na organização dos beneficiados distribuiu 402 senhas, ou seja, o número de pessoas que compareceram no local hoje foi mais de 60% maior que o que buscou doação no início da semana. É que, além dos ossinhos doados pelo açougue, foram entregues cestas básicas.

Entre os interessados estavam mulheres, idosas, negras, com crianças menores ou com bebês de colo. Uma mãe amamentou o filho enquanto esperava a doação. Até cachorros também circulavam pela rua, seguindo os donos.

Durante a ação, um idoso chegou em uma charrete. Ele amarrou o cavalo em uma rua lateral, e seguiu para a fila. Cada pessoa recebeu três cestas básicas. O kit completo, contendo alimentos básicos, produtos de limpeza, marmitex e um saco com ossinhos.

A organizadora das doações do açougue, Samara Rodrigues de Oliveira, 38 anos, contou ao g1 que a fila é uma demonstração da falta políticas públicas sociais a fim de diminuir o número de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

“As pessoas não têm instrução, alguns não sabem nem ler a senha que entregamos. Como ela vai buscar acesso ao benefício social? Eles (o governo) é quem têm que virem aqui. O estado tem condição de ir na casa das pessoas. Aqui é uma ponte. É pegando da raiz do problema que a gente diminui essa fila. Não é só fome”, afirmou.

As primeiras pessoas da fila eram duas cadeirantes.As doações começaram a ser distribuídas por volta de 9h.

Vizinhas unidas

Vizinhos e amigos se unem para ir até o local, que duas vezes por semana distribui ossos para famílias carentes. Alguns vão de carona e outros a pé, em grupos.

Duas aposentadas, que são mudas, de 62 e outra de 45, foram juntas até o açougue. Elas são vizinhas e também estão passando por dificuldades financeiras, sem ter o que comer. Elas dependem de intérpretes ou quem minimamente consiga compreender os gestos que elas fazem.

Um menino aparentando ter 13 anos foi retirar uma cesta básica para levar ao pai, que é idoso e está de cama. Ele não pôde receber a senha porque era menor de idade, mas os moradores na fila pediram que ele recebesse.

Os idosos tinham dificuldades em levar três sacolas cheias de alimentos e produtos de limpeza. Alguns derrubaram os alimentos na rua e na calçada. Outros abriram as marmitas e comeram ali mesmo, porque estavam com fome.

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