Depoimento sobre Vicente Correia

Kenard Kruel

Rua Coronel José Narciso, 844, na Praça Santo Antônio, localizada na Metrópole do Norte, com assim denominou Parnaíba dom Pedro I. Endereço que jamais esquecerei em minha vida. E nem o casal que ali morava. Dr. Vicente Correia e sua Teresa Carvalho Correia, pais de Fernando, Ronaldo, Aloísio, José Cláudio (falecido), Marcelo, Márcio, Cristina, Vânia e Edna. Dr. Vicente de Paulo Santos Correia era proprietário e fundador da Atalaia Turismo, a agencia de turismo mais antiga do Piaui (desde 1976). Hoje, de propriedade de Francisco Moraes, ex-gerente. 

Meninote, querendo ser jornalista, achei de criar um jornal, que nominei de Batalha do Estudante. Precisava de uma máquina de escrever, mimeógrafo, stencil e resmas de papel. Estávamos vivendo o início da era do mimeógrafo, meu caro poeta irmão Emerson Araújo, que se criou e se forjou dentro de uma gráfica. Dr. Vicente Correia forneceu a máquina de escrever. Todos os dias, à tarde, por voltas das 16 horas e ia à casa dele. 

Sentava-me à mesa central e ali instalava a redação do Batalha do Estudante. Tinha uma secretária eficiente, dona Teresa Correia que, de meia em meia hora, servia deliciosos sucos de frutas colhidas no quintal, com bolinhos que ela mesmo fazia em sua cozinha mágica. Ao lado, o seu Ozias Correia, rádio amador, numa espécie de apartamento próprio, a falar com o mundo inteiro e com quem aprendi os primeiros rudimentos de inglês, italiano, espanhol e francês. No outro dia, no Colégio Estadual Lima Rebelo, onde cursava o técnico em Administração de Empresa, recebia a cumplicidade de Cora, secretária, hoje esposa do conselheiro Olavo Rebelo, presidente do Tribunal de Contas do Estado – TCE – PI. Ela, nas horas de folga, passava no mimeógrafo o stencil, imprimindo o Batalha do Estudante. 

Além do ato, era a primeira a comprar um exemplar do jornal. O Dr. Vicente Correia, o segundo comprador. 10 exemplares. Dois reais, no dia de hoje. Eram 500 exemplares. Seis páginas. Ilustradas por Fernando Costa, de saudosa memória, Flamarion Cunha, José Vilson Santos, entre outras ilustrações que eu capturava nos jornais do Rio e de São Paulo. Passei a colaborar com o jornal Folha do Litoral, levado pelo amigo e mestre Bernardo Silva. 

Vibrava a cada publicação de um artigo ou poema meu. Às vezes, escrevia até mesmo o editorial, dentro da generosidade do mestre Bernardo Silva com o seu aprendiz. Logo me tornei escritor. Meu primeiro livro foi Em Três Tempos, também no mimeógrafo, em parceria com José Elmar de Melo Carvalho, que se tornou o grande poeta que é, e Paulo Couto. Nossas caricaturas foram feitas pelo Flamarion Cunha. A capa do José Vilson Santos. Rodado na Comepi – Companhia Editora do Piauí, graças à bondade do jornalista Deoclécio Dantas, então presidente. 

Dr. Vicente Correia comprou, em primeira mão, 10 exemplares. E isto se tornou rotina. Todos os meus livros seguintes, os primeiros 10 exemplares eram remetidos para ele, que os recebia com alegria imensa. Além do pagamento, nunca deixava de agradecer a deferência. Morando em Teresina, passei a editar, também, em mimeógrafo, o Cobaia, este de cunho político, posto que eu estava vivenciando a rebeldia típica da juventude. Era estudante de Letras na Universidade Federal do Piauí, envolvido com as lutas estudantis universitárias. Os 10 primeiros exemplares, não precisa que perguntem, eram enviados para o Dr. Vicente Correia. 

Quando ia à Parnaíba, a primeira casa a visitar era a do Dr. Vicente Correia. – “Como vai esta juventude? Como vai o meu nobre escritor? Se tivesse me avisado teria pedido ao prefeito que fosse recebê-lo na entrada da cidade, com a Banda de Música”. Era sempre assim que me recebia, todas as vezes. Em sua casa, ampla e confortável, uma capela própria. Nela, em sua companhia e de dona Teresa Correia, eu aliviava os muitos pecados das costas, ou assim rogava, em muitas orações. 

O Dr. Vicente Correia era um homem muito religioso, de uma fé inabalável! A foto que eu publico, talvez seja de um dos nossos últimos encontros. Foi clicada na inauguração da Sala Deoclécio Dantas, no prédio Agostinho Pinto, do SESC, por detrás do Liceu Piauiense, em Teresina. Ao me aproximar dele, ele foi logo dizendo: – “Como vai esta juventude? Como vai o meu nobre escritor?” E ficamos horas a conversar, esquecidos da grande festa ao nosso redor. No dia 9 de maio de 2013, na paz da Ilha Kenardiana, em Tutóia (MA), eu recebi a notícia de que o Dr. Vicente Correia tinha ido ao encontro do Pai, onde está sob sua proteção e em bom lugar, Santo que era na terra e reconhecido na morada do Senhor. 

Esta semana, viajando de Parnaíba para Teresina, de carona com o sobrinho Francisco Correia, e acompanhado pelo filho Marcelo Correia, recebi o pedido de fazer a biografia de Dr. Vicente Correia. Nada me honrará e me deixará mais feliz. Tudo que eu faça por ele, em sua memória, será pouco. Mãos à obra, Kenard Kruel! Com fé, esperança e amor.

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