
A decisão da Justiça Eleitoral de proibir a divulgação da pesquisa do Instituto Veritá no Piauí abre um debate grave sobre liberdade de informação, transparência eleitoral e o uso político do Judiciário em períodos pré-eleitorais.
Curiosamente, pesquisas encomendadas ou alinhadas aos interesses do Palácio de Karnak são amplamente divulgadas, repercutidas e transformadas em propaganda política diária. Nelas, o governador Rafael Fonteles aparece sempre em situação confortável, com números generosos e cenários praticamente sem disputa.
Mas bastou surgir uma pesquisa independente, na qual o governador aparece enfrentando dificuldades e sofrendo forte desgaste diante do ex-prefeito Joel Rodrigues, para que viesse a reação imediata: uma ação judicial para impedir que o povo tenha acesso aos números.
Ora, se as pesquisas favoráveis ao governo são consideradas legítimas, por que apenas as desfavoráveis devem ser censuradas?
O argumento jurídico pode até existir formalmente, mas o efeito político é evidente: impedir que a população conheça um cenário diferente daquele construído oficialmente pela máquina governista.
O Instituto Veritá realiza pesquisas em diversos estados brasileiros. Seus levantamentos circulam nacionalmente. No entanto, no Piauí, justamente onde os números teriam causado desconforto político ao governo estadual, surge uma decisão proibindo a divulgação.
A impressão que fica é perigosa para a democracia: pesquisa boa é a que favorece o governo; pesquisa ruim é a que precisa ser retirada do ar.
Nenhum governante deve ter o poder de escolher quais números o povo pode ou não conhecer. Democracia pressupõe confronto de versões, pluralidade de informações e liberdade para que o eleitor forme sua própria opinião.
Calar uma pesquisa por desagradar o poder não fortalece a democracia. Ao contrário: alimenta a suspeita de que existe medo da verdade das ruas.
E quando um governo combate mais a divulgação de números do que os problemas reais da população, o sinal político emitido é muito claro: há preocupação com a realidade eleitoral que começa a surgir fora do controle oficial.
O eleitor piauiense merece respeito. E respeito também significa acesso livre à informação , inclusive àquela que incomoda o poder.(Encarando/Silas Freire)