Milhões de reais foram contratados pela Agespisa para manutenção, implantação e ampliação de sistemas de abastecimento no Piauí. Entre as empresas beneficiadas aparece com frequência a Construtora Caxé Ltda., de Gustavo Macedo Costa. Só quatro contratos identificados pela coluna, considerando aditivos localizados, alcançam aproximadamente R$ 12,27 milhões. O maior deles foi o contrato 84/2023, destinado à manutenção preventiva e corretiva, monitoramento e operação da estrutura da Agespisa, que chegou a cerca de R$ 8,39 milhões após aditivo. Em Arraial, uma obra de implantação de rede saiu de R$ 1,46 milhão para aproximadamente R$ 1,82 milhão. Outros contratos destinaram cerca de R$ 1,04 milhão a Parnaguá e R$ 1 milhão a Floriano para ampliação de redes.

O problema é comparar o volume de dinheiro contratado com a realidade encontrada hoje. Parnaguá é o caso mais emblemático. Depois de mais de R$ 1 milhão contratado para ampliação da rede, o município chegou a 2026 enfrentando sucessivas interrupções no abastecimento. A situação levou o Ministério Público do Piauí a cobrar explicações da atual concessionária, inclusive informações sobre providências e melhorias necessárias no sistema. A prefeitura também informou a existência de poços desativados e comunidades dependendo de carros-pipa.
Em Floriano, onde outro contrato milionário foi destinado à ampliação da rede, reclamações sobre falta d’água também chegaram à Câmara Municipal em setembro deste ano. Vereadores relataram localidades passando vários dias sem abastecimento e problemas alcançando diferentes pontos do município. Há ainda Pimenteiras, onde a Caxé aparece vinculada a obra de sistema de abastecimento de água de aproximadamente R$ 628 mil, registrada no banco de acompanhamento de obras públicas consultado pela coluna como paralisada e com prazo vencido. Um detalhe político-administrativo não pode passar despercebido: os contratos da Agespisa de 2023 e 2024 levantados pela coluna foram celebrados durante a gestão de Zé Santana, que presidiu a companhia entre janeiro de 2023 e junho de 2025, no governo Rafael Fonteles, e hoje é candidato a deputado federal pelo PT.
É importante fazer a distinção: a existência de falta d’água atualmente não comprova, por si só, que uma determinada obra executada pela Caxé tenha fracassado ou seja responsável pelo desabastecimento. Parte dos problemas atuais pode decorrer de poços, bombas, manutenção, operação ou outras estruturas do sistema. Mas o contraste exige respostas. Se milhões foram destinados justamente à implantação, ampliação e manutenção dos sistemas, o que foi efetivamente entregue? Quanto foi pago? As obras estão funcionando? Quem recebeu e atestou os serviços? E por que municípios alcançados por investimentos milionários continuam enfrentando torneiras secas? É essa conta que a coluna começa a abrir.(Silas Freire)