Os montadores de sonhos

Por: Pádua Marques(*)

Hoje pela manhã, ao fazer minha costumeira caminhada dentro do Estádio Pedro Alelaf, me deparei com uma cena comovente. No sábado, amanhã dia 10 de outubro, a prefeitura de Parnaíba vai realizar uma comemoração do Dia das Crianças e contratou os serviços de uma empresa, dessas que costumam montar parques de diversão pelo interior.

Estavam lá espalhados, centenas de brinquedos de todos os tamanhos e finalidades, Carrinhos, cavalinhos, foquetes supersônicos, roda gigante, pula-pula, tudo, tudo. E no meio daqueles brinquedos, o sonho de toda criança, meus olhos puderam ver e descobriram, três redes de dormir. Eram dos trabalhadores, que chegando à noite, na véspera, cansados, ali mesmo armaram seus lugares de descanso para pegar no pesado no dia seguinte.

Cheguei e vi os três operários ainda dormindo à larga. Devem ter trabalhado muito, talvez até a madrugada. Havia dentro do estádio até uns caminhões ainda carregados de brinquedos ainda por desmontar. Fiz minha caminhada e me veio aquela vontade, uma inquietação de escrever algo sobre aqueles homens e seus trabalhos, coisa que não me saiu da cabeça.

Aqueles homens, que devem conhecer a arte de montar parques de todos os lugares e de todos os tamanhos, me deram um exemplo de humildade. Deles eu não sei e nunca vou saber seus nomes, se Rimundos, Chico, José, Jorge, Pedro, Euclides, Severino e nem onde nasceram , se no Maranhão, São Bernardo, Natal, Alagoas, Recife, Caruaru…

Não sei e nem nunca vou saber se alguns têm filhos pequenos, crianças de colo, com a mãe amamentando, se estão na escola, como dormem, a que horas acordam, se sabem por que e onde anda o papai, se tem dinheiro e quando volta pra casa. Certamente que um dia qualquer voltarão para casa, com pouco dinheiro, alegres, mas o Dia da Criança para os seus filhos já terá passado.

E esses homens estavam ali, dormindo ao relento, expostos a toda sorte de desconforto, descansando de um dia infernal de trabalho, trabalho que tem como objetivo dar alegria e sonho num dia de manhã para centenas de crianças que eles não conhecem. Eles nem sabem se voltarão uma semana, um mês dias, para casa. Talvez nem se lembrem que têm filhos e se lembram será uma lembrança rápida.

Esses homens rudes, de pouca ou nenhuma instrução, de roupas sujas de graxa, suados, sem banho e conforto, que nem tomaram café com seus filhos e com a mulher, esses homens estão correndo o mundo, as estradas poeirentas do interior do Piauí e do Nordeste, com uma das maiores virtudes humanas, a humildade,  montando o lugar onde vai se mostrar a alegria para crianças desconhecidas, o sonho para outros lugares.

* Pádua Marques, é romancista, cronista e contista, da Academia Parnaibana de Letras. 

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