Policiais militares flagrados atuando em uma milícia armada em favor de posseiros na região de Barra Grande, em Cajueiro da Praia (PI), foram punidos administrativamente com 30 dias de suspensão. A decisão foi assinada pelo comandante-geral da Polícia Militar do Piauí, coronel Scheiwann Scheleiden Lopes da Silva, e publicada em boletim interno da corporação na última segunda-feira (26). Apesar da gravidade dos fatos apontados, os militares permanecem nos quadros da instituição.
O caso foi encaminhado ao Ministério Público do Estado do Piauí, responsável pelo controle externo da atividade policial, para apuração criminal. Também foram enviadas cópias ao Ministério Público Federal, que avaliará eventual competência da Justiça Federal.
As informações são do jornalista Carlos Madeiro do site UOL.
O processo administrativo disciplinar identificou, em tese, dois crimes: Esbulho possessório qualificado (privação da posse mediante violência ou grave ameaça) e constituição de milícia privada.
A investigação foi instaurada em 15 de março de 2024 e conduzida pela Corregedoria-Geral da PM. A denúncia indicava que policiais da ativa integravam uma “organização estruturada” que prestava serviços de segurança privada armada em zona de conflito fundiário, em benefício de particulares envolvidos em litígios possessórios.
Foram punidos dois sargentos e três cabos da corporação. Um cabo da PM do Ceará recebeu cópia do processo para providências administrativas naquele estado, e uma ex-tenente permanece sob investigação.
Atuação em favor de posseiros
De acordo com o relatório, os militares ofereciam “suporte de segurança e intimidação a grupos de posseiros de elevado poder aquisitivo” que buscavam consolidar esbulhos mediante violência e ameaça.
Entre as provas consideradas estão fotografias, reconhecimentos por testemunhas e adesivos com o número pessoal do comandante do grupamento local, colados em propriedades privadas como forma de “blindagem” institucional aos posseiros.
O comandante alegou que os adesivos foram colocados sem seu consentimento, tese rejeitada na decisão administrativa. O relatório afirma ser “inverossímil” que ele desconhecesse a utilização ostensiva de seu nome, cargo e contato telefônico na região onde exercia comando operacional.
Há ainda relato de que um sargento forneceu CNPJ de uma empresa de confecção de roupas, apresentando-a falsamente como empresa de segurança responsável pela vigilância, um indício de tentativa deliberada de conferir aparência de legalidade à estrutura clandestina.
Outros episódios e desaparecimento de livro oficial
Durante a apuração, um cabo foi flagrado enquanto cercas eram derrubadas em propriedade privada. Outro atuava como motorista e segurança particular de empresária envolvida em litígios fundiários havia cerca de três anos. Um terceiro admitiu ter efetuado disparos de arma de fogo em área de conflito.
A investigação também registrou o “desaparecimento inexplicado” do Livro de Registros de Partes Diárias da PM em Cajueiro da Praia. O comandante-geral determinou a abertura de sindicância específica para apurar possível extravio ou sonegação de documento público.
O relatório conclui que houve “dolo intenso” e que a conduta gerou “grave desprestígio à Polícia Militar do Piauí”, apontando a existência de organização estruturada, com divisão de tarefas e atuação coordenada.
A disputa fundiária ocorre em meio ao crescimento turístico de Barra Grande, destino que viveu um boom nos últimos anos com a expansão de pousadas e a consolidação do kitesurf como principal atrativo internacional. Em maio de 2024, comunidades tradicionais denunciaram ameaças e expulsões atribuídas a milícias que atuariam em favor de empresários e posseiros, levando o caso à Defensoria Pública da União.
Segundo informações apuradas recentemente, a situação estaria mais controlada após atuação conjunta de forças estaduais e federais.
O Ministério Público do Estado do Piauí informou que, em dezembro de 2025, devolveu o inquérito policial militar para cumprimento de diligências e que adotará as medidas cabíveis assim que os autos retornarem.
A assessoria da Polícia Militar do Piauí não respondeu aos questionamentos sobre os critérios que fundamentaram a aplicação de suspensão de 30 dias diante da gravidade das infrações apontadas.
Fonte: Uol