O Governo do Piauí preparou, para este sábado, a inauguração de um equipamento que pretende colocar o estado no mapa global da inovação: um portal tecnológico interativo instalado em Barra Grande, no município de Cajueiro da Praia. Integrado a um projeto internacional que conecta cidades ao redor do mundo por transmissão ao vivo, o equipamento será apresentado como símbolo de modernidade e integração global.
Mas, por trás da narrativa oficial, os números e a realidade local expõem um contraste difícil de ignorar.
Documentos oficiais mostram que a obra do Parque Reserva do Portal, espaço que abriga a estrutura tecnológica, foi contratada pela Secretaria de Turismo do Piauí por R$ 3.791.291,73. O contrato, firmado com a empresa MJL Engenharia Ltda., teve execução inicial de 150 dias, posteriormente prorrogada por mais 180 dias, estendendo o prazo até março de 2026. Além de ter sido feito na modalidade de dispensa de licitação.
Ou seja, trata-se de um investimento robusto de recursos públicos em uma estrutura voltada essencialmente à experiência turística e à projeção internacional do estado.
Enquanto isso, Cajueiro da Praia convive com problemas crônicos de infraestrutura básica. Moradores e empresários da região relatam falta constante de abastecimento de água, além de oscilações frequentes no fornecimento de energia elétrica, especialmente em períodos de alta demanda turística.
A contradição é evidente: em uma cidade onde serviços essenciais ainda não são plenamente garantidos, o Estado opta por investir milhões em um equipamento de alto apelo simbólico, mas de impacto prático questionável para a população local.
O discurso institucional sustenta que o projeto deve atrair turistas e fortalecer a economia da região. No entanto, especialistas em gestão pública costumam apontar que investimentos em infraestrutura básica tendem a gerar retorno social e econômico mais consistente do que iniciativas de caráter promocional.
Outro ponto que chama atenção é a modalidade da contratação. O contrato foi firmado por dispensa de licitação, com base na Lei nº 14.133/2021, mecanismo legal que, embora previsto, exige justificativas robustas diante do volume financeiro envolvido.
Além disso, o próprio cronograma revela dificuldades na execução, já que houve necessidade de prorrogação significativa do prazo, indicando possíveis entraves no andamento da obra.
A inauguração do portal deve reunir autoridades e reforçar o discurso de inovação. Mas, para quem vive em Cajueiro da Praia, a pergunta central permanece: de que adianta estar conectado ao mundo, se ainda falta o básico dentro de casa?
Fonte: Portal AZ