Saúde à venda no Piauí: faculdades lucram, pacientes pagam a conta

Durante décadas, o Piauí construiu, com esforço e tradição, um respeito regional pela sua medicina. Médicos formados aqui eram sinônimo de preparo, seriedade e compromisso com a vida. A saúde não era negócio, era missão pública. Esse pacto moral está se rompendo.

Hospital Getúlio Vargas em Teresina, década de 40. Centenas de médicos reconhecidos nacional e internacionalmente passaram por esse prédio que tenta manter um padrão aceitável de atendimento.

Hoje, a saúde do piauiense está à venda, exposta numa prateleira onde o diploma virou produto, o aluno virou cliente e o paciente virou risco colateral.

O Enamed escancarou o que os hospitais já vinham denunciando em silêncio: cerca de 30% das escolas médicas brasileiras foram reprovadas por insuficiência de formação. Não se trata de estatística educacional. Trata-se de gente real sendo atendida por profissionais que não receberam preparo adequado. Cada nota baixa representa um risco direto à população.

No Piauí, o problema deixou de ser abstrato. Curso de medicina com nota 2 significa formação insuficiente. Significa profissional entrando no sistema sem domínio técnico pleno. Significa mais erro diagnóstico, mais conduta equivocada, mais prescrição errada, mais internação desnecessária e mais morte evitável. Não existe romantismo nisso. Existe causalidade.

Vestibular para medicina no Piauí. O sonho antigo da família piauiense. Medicina era quase que um carimbo de garantia de qualidade de vida para o profissional.

O mercado educacional transformou a medicina em um ativo financeiro. Grupos privados abriram cursos como quem abre franquias. A lógica não é formar bons médicos. A lógica é ocupar território, vender vagas, ampliar mensalidades e escalar lucro. Hospital-escola vira peça de marketing. Laboratório vira cenário. O jaleco vira propaganda. A formação vira cópia de algo real.

Enquanto isso, a realidade nos hospitais piauienses grita. Quase 10 mil notificações de falhas assistenciais em um ano não são coincidência. São consequência. Erro de identificação de paciente não é azar. Lesão por pressão não é fatalidade. Evento adverso não é acaso. Tudo isso nasce da soma entre sistema frágil e formação deficiente.

O piauiense comum sente isso na pele. Na fila do SUS. Na demora do diagnóstico. No tratamento errado. Na cirurgia que dá complicação. Na internação que se prolonga. Na alta que vem cedo demais.

A medicina precarizada não atinge elites. Ela atinge quem depende do sistema público, quem não pode escolher hospital, quem não pode pagar segunda opinião, quem não pode errar.

E quando o erro acontece, o caminho é o tribunal. A explosão da judicialização da saúde é o reflexo lógico desse modelo. Processos por erro médico crescem porque o risco aumentou. Famílias processam porque perderam o que não era recuperável. A Justiça virou extensão do hospital. O juiz virou última instância de cuidado. Isso não é avanço institucional. Isso é colapso sistêmico.

O peso financeiro de um grande negócio e a saúde do piauiense.

Existe um contraste moral claro:

De um lado, instituições públicas que mantêm rigor, seleção, pesquisa, hospital-escola real e formação sólida. Do outro, faculdades privadas operando como empresas de varejo, vendendo sonho de status, promessa de ascensão social e diploma rápido, sem compromisso proporcional com qualidade.

O resultado é perverso:

  • Lucro privado, risco público.
  • Mensalidade garantida, vida vulnerável.
  • Expansão de vagas, colapso de confiança.

A saúde do piauiense virou ativo de mercado. Cada vaga aberta sem critério é um risco novo circulando no sistema. Cada diploma vendido sem excelência é um potencial processo judicial. Cada médico mal formado é uma ameaça involuntária ao paciente que ele deveria proteger.

Ponto de Ruptura

O Piauí chegou ao limite ético. Ou trata a formação médica como política pública estratégica, ou aceitará a transformação definitiva da saúde em mercadoria.

Não existe meio-termo entre lucro e vida. Quando o mercado manda, a ciência obedece. Quando a mensalidade define a vaga, o paciente vira estatística.

A pergunta que fica não é educacional. É moral:

  • O Piauí quer formar médicos ou vender diplomas?
  • Quer proteger pacientes ou proteger faturamento?
  • Quer ser polo de saúde ou balcão de negócios?

Porque uma coisa é certa: quando a saúde vira produto, o piauiense vira consumidor de risco. E quando a medicina vira mercado, a morte deixa de ser tragédia e passa a ser custo operacional. Isso não é progresso. Isso é retrocesso civilizatório.E a conta já começou a chegar. Nos hospitais. Nos cemitérios. E nos tribunais do Piauí. (Lupa1)

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