Jacques Gruman
O Menino estava sentado na soleira da porta, mão no queixo, olho no infinito. Era quase hora, a ansiedade escapava pela respiração acelerada. Será que ainda demora ? Pensava nisso, quando uma figura familiar aparece na ladeirinha que dava para a Vila. Bolsa de lona, uniforme de tecido grosso que empapava de suor na canícula carioca, lá vinha o carteiro. “Chegou o correio !”, berrou o menino, revelando a senha que desencadeava uma reação fulminante nos amigos igualmente ansiosos.
O funcionário que carregava, sem saber, muito mais do que envelopes e postais, via-se, de repente, cercado por um enxame de molequinhos incontroláveis, doidos para descobrir correspondências endereçadas a senhores com menos de dez anos. O pai de um deles tinha escrito uma carta em inglês, modelo para pedir catálogos de novas linhas de avião de empresas norte-americanas. Distribuída a rodo, de vez em quando resultava em gordos envelopes, com fotos e textos no então indecifrável idioma. Receber aquela “coisa de adulto” era excitante.
Vez por outra, uns privilegiados conseguiam correspondentes no exterior e, através deles, ampliavam o horizonte limitado por mangueiras, matagais e traves improvisadas. Tudo em ritmo lento, que amplificava o prazer do momento fugaz em que aquele braço estendido coloria um mundo cinzento e previsível. E custava tão pouco … Com quantos megabytes se faz um sorriso?
Hoje, o carteiro é um personagem quase invisível. Mensageiro resignado de contas a pagar e inúteis propagandas. Cartas, especialmente as manuscritas, viraram passatempo de excêntricos ou, quem sabe, de crédulos nos símbolos ancestrais da individualidade.
MUNDO VIRTUAL
Quase 3 bilhões de pessoas no planeta estão, de alguma forma, conectadas ao mundo virtual. Passam, todos os meses, mais de 35 bilhões de horas na internet. Desenvolvem-se patologias ligadas à necessidade de respostas imediatas e conexão permanente. A noção de tempo mudou. Baixa velocidade é considerada imprudência, atraso, descompasso com a “modernidade”. “O mundo virou mais rápido”, observa a psicóloga Luciana Nunes, “o tempo digital é mais veloz que nosso tempo cronológico”. O resultado, agrega, “é que faz parte dessa velocidade digital a necessidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Como ver novela e estar on-line num celular ou tablet”.
Quem ainda não viu, em bares e restaurantes, por exemplo, grupos de pessoas que mal se sentam e imediatamente colocam celulares na mesa ? Quantos conseguem sair de férias sem carregar notebooks ou dar uma olhadinha diária no computador do hotel ? Ficar desconectado virou aflição, tudo precisa de resposta imediata. Pausa está caindo em desuso.
Como essa aceleração cotidiana impacta os nossos indignados, que continuam nas ruas e introduzem interrogações nas análises convencionais dos fatos políticos ? Uma grande parte deles é da geração Google. O Menino se pergunta como as relações velozes fazem a cabeça dos manifestantes. Não sabe a resposta, ninguém sabe, mas se a pressa for conselheira da ação política, o risco de fracasso será enorme
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