Por:Benjamin Santos
abriu duas páginas sobre o Troca-troca. Um extenso e detalhado perfil do que
existia e acontecia naquele lugar que já foi chamado Areal da Santa Casa, Largo
da Santa Casa, Campo da Santa Casa, Praça da Santa Casa e que se tornou,
oficialmente, Praça Antônio do Monte (um nome que nunca pegou na boca-do-povo)
e por fim, se tornou o popular (no sentido de que é uma praça realmente do povo)
Troca-Troca. Nenhum outro lugar da cidade é mais odiado e temido por todas as
outras camadas sociais que não o frequentam.
Troca, levado pelas muitas notícias e boatos de que a prefeitura vai acabar com
tudo aquilo e levar os mercadores para outro lugar. Acontece que qualquer
mudança ali será uma situação de nível altamente social. É que aquele lugar é
um retrato da miséria e, ao mesmo tempo, da humanidade da Parnaíba. Um panorama
das camadas mais baixas da cidade em convívio contínuo e contíguo com as
classes mais altas, que têm escola por ali e têm lojas e passam em seus carros de
alto valor com medo até de olhar para a praça. No entanto, nenhum outro lugar
da Parnaíba retrata melhor a desigualdade econômica e cultural da polis. Ali
convivem em igualdade homens e mulheres do bem, trabalhadores que dali retiram
o sustento de suas famílias, moradores de cidades periféricas que vêm à PHB por
um dia, marginais de pequenos furtos, marginais de grandes assaltos (sem que eu
os identifique), assassinos, ex-presidiários, pobres miseráveis que dormem na
rua, doentes mentais engolidos pela cidade (enxotados e espancados pelo próprios
usuários da Praça), fulano-de-tal que foi soldado e hoje é mendigo, sicrano-de-tal
que era casado e chefe-de cozinha e foi enganado pela mulher, veio pra cá e
hoje vive na rua…
Os Miseráveis, parece ter sido transportada pro Troca da Parnaíba. Por tudo
isso, qualquer ação de desmonte do Troca tem que ser planejada e executada com
especial reconhecimento dos valores humanos que existem ali. Não pode ser
pensada apenas como uma maneira de extirpar do seio da cidade um ambiente que
amedronta, assusta e espanta as classes mais elevadas. Com o passar desses
quatro anos, o ambiente ficou visivelmente mudado: muitos buracos novos, muitas
bancas de celular e produtos afins e mais mesas de jogo: baralho, bingo e
caipira. O cenário social, porém, é o mesmo: parece que são as mesmas pessoas,
apenas vestidas de outro modo ( mais fashion ou mais miseráveis) e com novas
gírias. E, tal como em 2010, o Troca continua a aparecer em manchetes de saites
e televisões com matérias policiais e de
repúdio à existência do lugar. Um detalhe: a partir da extinção, que vai haver,
será impossível escrever-se uma História Social da Parnaíba sem um capítulo
para o Troca-troca. Só que os historiadores de hoje não conhecem a realidade do
Troca, nenhum deles jamais mergulhou naquele emaranhado de barracas, bancas e
seres vivos.



















