O que era pra ser um serviço público virou, segundo o próprio Tribunal de Contas, um caso claro de dinheiro entrando onde não podia. Uma denúncia considerada procedente escancarou uma prática grave: um ex-prefeito do município de Buriti dos Lopes, Júnior Percy (PP) teria recebido, ao mesmo tempo, dois salários pagos com dinheiro público — algo que a Constituição proíbe sem deixar brecha.
Na prática, é como se alguém estivesse trabalhando em um cargo que exige dedicação total, mas continuasse recebendo como se estivesse em outro emprego público ao mesmo tempo. E não é qualquer cargo: estamos falando de prefeito, a principal autoridade do município, que por lei precisa se afastar do seu cargo anterior ou escolher apenas um salário. Não dá pra ficar com os dois. Mas, segundo o processo, foi exatamente isso que aconteceu.
O caso chama ainda mais atenção porque não foi um erro pequeno ou passageiro. De acordo com os dados analisados, essa situação teria se repetido ao longo de anos, entre 2021 e 2024. E o resultado disso foi um prejuízo direto aos cofres públicos que ultrapassa R$ 784 mil. É dinheiro suficiente para melhorar escolas, investir em saúde ou garantir serviços básicos para a população — mas que, segundo a apuração, acabou sendo pago de forma indevida.
O mais grave é que não dá pra alegar desconhecimento. Os documentos mostram que o próprio Júnior Percy, braço direito da Prefeita Laura Rosa (PP) e seu Secretário de Finanças, chegou a formalizar a escolha por um dos salários, no caso o de professor da rede estadual. Ou seja, ele sabia que precisava optar. Mesmo assim, continuou recebendo também como prefeito. É como assinar um contrato dizendo “vou ficar com um” e, na prática, levar os dois.
A Constituição é clara: quem assume como prefeito deve se afastar do cargo anterior e escolher apenas uma remuneração. Não existe meio-termo, nem interpretação diferente. Ainda assim, segundo o Tribunal de Contas, houve desrespeito direto a essa regra básica.
E aqui não estamos falando apenas de uma falha administrativa ou de um detalhe burocrático. O próprio processo classifica a situação como uma infração grave, com dano real ao erário — ou seja, ao bolso da população. Porque, no fim das contas, todo esse dinheiro saiu do contribuinte.
Agora, com a denúncia confirmada, o caso avança para uma etapa ainda mais séria: a chamada Tomada de Contas Especial. Traduzindo: é quando o órgão passa a cobrar oficialmente explicações e pode exigir a devolução do dinheiro, além de abrir caminho para outras punições.
O ex-prefeito terá direito de se defender, como manda a lei. Mas os fatos já reconhecidos colocam uma pergunta que muita gente deve estar fazendo: como uma situação dessas passa tanto tempo acontecendo sem ser barrada?
Casos assim reforçam uma sensação que muita gente já tem: enquanto o cidadão comum precisa se virar com um salário só — e muitas vezes insuficiente —, há quem consiga, de forma irregular, acumular valores que deveriam ser rigorosamente controlados.
No fim das contas, não é só sobre números. É sobre confiança. E quando o dinheiro público entra em jogo, qualquer desvio — ainda mais desse tamanho — pesa direto na conta de quem mais precisa dos serviços públicos funcionando direito.
Fonte: Portal A10+