Perfeito,
mas precisamos ter alguns pontos de reflexão nessa empreitada. É preciso
entender que os problemas que o Piauí enfrenta, vão além de uma cultura
oligárquica e predatória que se apropria do público como privado. Estão
conectados a um modelo de desenvolvimento regional e nacional que nos mantém à
margem de todo o progresso econômico e social
Nos
últimos meses, o país celebrou orgulhos a redução das desigualdades sociais,
com destaque para a diminuição da extrema pobreza. Mas, o que é ser
“extremamente
pobre”? Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, o
conceito de pobreza extrema é caracterizado pela população com renda per capita
de até um quarto de salário mínimo. O Piauí, por exemplo, se orgulha de
ter um dos melhores desempenhos de redução do número de famílias que saíram
desta lastimável condição humana.
Esses
dados, embora concretos, são fundados na elevação do padrão de vida em função
dos programas de transferência de renda do governo federal. Apesar do
crescimento econômico notório das últimas décadas, permanecemos injustos e
concentradores de riqueza.
É preciso
pensar nosso estado pela lógica de um modelo de desenvolvimento que se atreva a
incluir os excluídos pela porta da oportunidade de distribuição justa das
nossas riquezas. Não somos pobres, estamos pobres. E isso faz uma grande
diferença. Faz-nos pensar nesse momento em algumas indagações pertinentes: quem
se apropriou de nossas riquezas? Quem ainda se apropria? Uma pequena parcela da
sociedade que mantém o controle político e econômico do estado. Enquanto isso
aumenta o contingente de pobres e dependentes da ação paternalista que humilha
e degrada a condição humana.
Sair da
condição de ser um dos estados que, proporcionalmente, mais recebe recursos
federais dos programas sociais e que esse montante promove um impacto positivo
na economia local é um desafio. Que não se repita o erro de querer desenvolver
ações que permitam essas famílias se auto sustentarem somente após esse
ato de tirar os pobres da extrema miséria. Concomitantemente, dever-se-ia
promover a melhoria do quadro social via investimentos em serviços públicos,
como saúde, educação, segurança, transportes, geração de emprego e renda, etc.
“Vozes da
seca” uma
composição de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em 1947 já profetizavam:
“Uma esmola
a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. E como
continua atual! Queremos celebrar um Piauí que substitua o recebimento de
elevadas somas em programas de transferência de renda por recursos federais a
serem aplicados em políticas públicas que melhorem a qualidade de vida das
pessoas efetivamente, através de obras estruturantes, melhoria dos sistemas de
saúde e educação…
O Brasil
é a 7ª economia do mundo, porém amarga a 129ª posição em infraestrutura,
serviços de água e esgoto das cidades em padrões africanos, precaríssimos
serviços de saúde e educação que revelam os contrates que se deseja chamar a
atenção para o modelo de desenvolvimento que se quer para o Piauí. No ranking
da educação da UNESCO o país está em 80º lugar de 127 países. Não adianta ter
elevação do PIB se as desigualdades se ampliam, se a maioria da população não
desfruta de uma vida digna…
As
desigualdades sociais revelam que há um hiato enorme dos indicadores que servem
para apontar a qualidade de vida no Brasil comparada com o Nordeste, maior se
torna quando se compara entre o Nordeste e o Piauí. A raiz do problema é uma
só: gestão ruim, com aplicações dos recursos públicos de forma equivocada e
recheada de desvios da sua finalidade. Reconhecer
tudo isso já é um avanço, discuti-lo, mais ainda. É preciso que haja
compromisso dos gestores públicos não só estaduais, mas e, principalmente, dos
gestores municipais. Enquanto se fala em planejamento, estudos de viabilidade,
zoneamento proposto pelo estado, os municípios sequer despertam para a
necessidade de participação. Deveriam acompanhar a mesma balada.
Falar e
pensar um Piauí 2050 sem envolver os municípios piauienses é um tiro no pé.
Senhores prefeitos pensem também a “sua” cidade para 2050, que tal?
Concluo
me valendo do pensamento do economista indiano e Prêmio Nobel da economia em
1998, Amartya Sen, “a vida empenhada no ganho é uma vida imposta, e
evidentemente a riqueza não é o bem que buscamos, sendo ela apenas útil e no interesse
de outra coisa”. Mas diz ainda o pensador grego que “ainda que valha a pena
atingir esse fim para um homem apenas, é mais admirável e mais divino atingi-lo
para uma nação ou para cidades-Estados”.